Por Nilton Cesar Santana | 02 de julho de 2026

Foto: Reprodução / Redes Sociais
A manhã desta quinta-feira, 02 de julho de 2026, amanheceu com o barulho das viaturas da Polícia Federal cortando a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. O alvo? Um flat de luxo no Grand Hyatt. O preso? O influenciador, líder religioso e industrial do tabaco Márcio Poncio, de 52 anos. A operação, batizada de Unha e Carne (já em sua 5ª fase), escancara uma mistura indigesta que há anos corre nos bastidores do Rio: a fusão entre a fé, a contravenção e a política.
O que a Polícia Federal traz a público não é um pequeno deslize, mas um autêntico roteiro de cinema policial. Poncio, conhecido nacionalmente pelo clã de influenciadores que comanda e apelidado há tempos de "pastor do cigarro" por ser proprietário de uma fábrica de cigarros no estado, viu seu nome formalmente vinculado às engrenagens mais profundas da criminalidade fluminense. De acordo com as investigações, a estrutura industrial e os canais financeiros controlados pelo religioso serviam como duto de lavagem para a nova cúpula do jogo do bicho e para a bilionária engrenagem da máfia do cigarro ilegal.
As provas colhidas pela PF apontam para uma contabilidade paralela extremamente sofisticada. O esquema utilizava transações financeiras fragmentadas e doações de campanha eleitoral não declaradas para blindar figuras poderosas, incluindo o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, e o contraventor Adilsinho — ambos também capturados nesta nova fase. Ao todo, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou o bloqueio imediato de R$ 22 milhões em bens e contas dos investigados.
A prisão de Márcio Poncio, aos 52 anos, é o símbolo perfeito da metamorfose do crime organizado no estado. Não se trata mais do domínio puramente territorial ou da violência explícita nas favelas. O topo dessa pirâmide veste terno, frequenta hotéis cinco estrelas, comanda complexos fabris, dita tendências nas redes sociais e manipula o sagrado para mascarar o rastro de fumaça da ilegalidade.
Amparada pela ADPF 635 (a ADPF das Favelas), a ação da Polícia Federal manda um recado claro ao asfixiar o coração financeiro e empresarial desse ecossistema. Para limpar o Rio de Janeiro, não basta subir o morro; é preciso fiscalizar as indústrias e confiscar as contas na Barra da Tijuca. O "pastor do cigarro" agora troca a ostentação digital e a rotina fabril pelas explicações à Justiça, provando que, no labirinto da corrupção carioca, nem as amarras da fé e nem o poder econômico são capazes de esconder o dinheiro sujo.