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Cristã extremista é presa em bairro nobre de Salvador após atacar terreiro de candomblé com pichações de “Jesus” e “Assassinos” em letras vermelhas
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Por Nilton Cesar Santana | 06 de julho de 2026

Terreiro teve a fachada vandalizada na manhã de sábado (17); polícia busca autores Crédito: Sora Maia/CORREIO

Uma operação da Polícia Civil da Bahia na manhã desta segunda-feira (6) resultou na prisão preventiva de uma mulher de 45 anos, apontada como a autora de um violento ataque de racismo religioso contra um dos templos de matriz africana mais tradicionais de Salvador. A prisão ocorreu no bairro nobre da Pituba, onde também foram apreendidos celulares, notebook e agendas da suspeita.

O mandado de prisão é o desfecho de uma investigação de seis meses liderada pela Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin). O crime que chocou a capital baiana aconteceu na madrugada de 17 de janeiro deste ano, no bairro de Cajazeiras XI, e mirou o terreiro Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza.

O rastro de intolerância na madrugada

Na ocasião do ataque, o cenário encontrado pelos religiosos nas primeiras horas da manhã gerou profunda indignação. Com tinta vermelha, a agressora pichou as palavras "Assassinos" na parede principal e "Jesus" no portão de entrada de veículos. A caixa de correio, a campainha e o portão de pedestres foram completamente vandalizados e cobertos por respingos da tinta.

À época, o líder do templo, Tata Mutá Imê (Pai Mutá), expressou o sentimento de violação que a comunidade sofreu:

"Eu me sinto invadido, desrespeitado pelo povo de Jesus. É um absurdo, irrita ver o seu território sagrado sendo invadido por pessoas que dizem ser de Deus."

De acordo com lideranças locais, o uso do termo "Assassinos" reflete uma visão preconceituosa e deturpada sobre o abate sacro de animais, um ritual litúrgico de partilha de alimentos comum à religião. Especialistas apontam a contradição de grupos intolerantes que atacam os terreiros, mas consomem carne animal de abatedouros industriais diariamente, evidenciando que a real motivação do crime é o racismo contra a cultura e a fé de matriz africana.

Um ataque à história e à ancestralidade

O impacto social do vandalismo ganhou contornos ainda mais graves devido à importância histórica do local. Com 33 anos de atuação e fortes trabalhos sociais em Cajazeiras, o Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza descende da quinta geração da etnia Ambundu, vinda de Angola. Trata-se da linhagem da família africana mais antiga a desembarcar no Brasil, cujo povo liderou, no passado, a construção da emblemática Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho.

O episódio mobilizou entidades em todo o país. A Fundação Cultural Palmares emitiu uma nota de repúdio enérgica, reiterando que ataques a templos religiosos afro-brasileiros não são vandalismos isolados, mas sim graves atentados aos direitos fundamentais e à liberdade de culto garantida pela Constituição.

As contradições da capital mais negra do país

O crime evidencia uma profunda ferida social na capital baiana. Salvador é considerada a maior cidade negra do Brasil e a maior fora do continente africano, apresentando uma população que, segundo dados do Censo Demográfico, é de 83,2% autodeclarada preta ou parda. Quando o preconceito se manifesta dessa forma em uma metrópole com tamanha ancestralidade, fica claro que a violência contra os templos de matriz africana ultrapassa a intolerância comum e se consolida como racismo religioso estrutural, ferindo a identidade da esmagadora maioria do seu povo.

Da pichação à prisão na Pituba

A identificação da suspeita só foi possível após um minucioso trabalho da Decrin, que analisou imagens de câmeras de segurança do entorno do terreiro e cruzou dados nos últimos meses. O contraste geográfico chamou a atenção das autoridades: o crime foi cometido na periferia, em Cajazeiras XI, mas a investigada residia em uma área de classe média alta de Salvador.

O material tecnológico apreendido na casa da suspeita passará por perícia para identificar se ela agiu sozinha ou se faz parte de alguma célula de extremismo religioso atuante na internet. A mulher passou por exames de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML) e permanece presa, à disposição do Poder Judiciário. Ela responderá pelos crimes de racismo religioso e dano qualificado.

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