Por Nilton Cesar Santana | 26 de junho de 2026

Foto: Reprodução/Redes Sociais
A expressão "calote ungido" resume com precisão a ironia e a gravidade que cercam a decisão da juíza Larissa Brauns Santos, da 6ª Vara Cível da Comarca de Guarulhos (SP). Em despacho proferido em maio de 2023, a magistrada determinou a penhora de um helicóptero de luxo da Igreja Mundial do Poder de Deus, fundada pelo apóstolo Valdemiro Santiago, para quitar uma dívida de aluguel de apenas R$ 188 mil. O episódio expõe um forte descompasso entre o discurso de prosperidade financeira pregado nos altares e a realidade de inadimplência que se arrasta nos tribunais desde abril de 2019.
Este caso, contudo, está longe de ser um fato isolado; frequentemente, a Igreja Mundial enfrenta uma enxurrada de processos semelhantes por falta de pagamento de aluguéis de seus templos por todo o país. Do ponto de vista jurídico, a ação do Tribunal de Justiça de São Paulo reforça que a imunidade garantida por lei às instituições religiosas restringe-se a impostos, não servindo como salvo-conduto para o descumprimento recorrente de obrigações cíveis e contratos privados. O bloqueio da aeronave — um modelo Agusta avaliado em milhões de reais — ocorreu após a instituição falhar em honrar mais um acordo de parcelamento, demonstrando o esgotamento dos mecanismos de conciliação por parte dos credores.
Para além do cenário legal, o histórico de repetidas ações por despejo e inadimplência carrega um simbolismo de forte impacto na opinião pública. A justificativa institucional de crise financeira e queda na arrecadação contrasta de forma nítida com a manutenção de um patrimônio de alto padrão voltado ao deslocamento das lideranças. Situações crônicas como essa geram um desgaste inevitável na imagem da igreja, alimentando debates necessários sobre a transparência, a responsabilidade administrativa e a fiscalização da gestão de recursos dentro de grandes organizações religiosas no país.