Por Nilton Cesar Santana | 4 de junho de 2026

O ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro em junho — Foto: Lucas Tavares / Agência O Globo
A madrugada de hoje entra para a história do Judiciário fluminense e para a crônica da perplexidade humana não apenas como o encerramento de um rito processual, mas como o desmascaramento definitivo da hipocrisia social e política que, por anos, blindou a perversidade.
A condenação de Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, de 48 anos, a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão pelo homicídio duplamente qualificado, tortura e coação no caso do menino Henry Borel, joga luz sobre as profundezas de uma mente sádica e psicopática. Mais do que isso, o desfecho deste julgamento histórico — o mais longo da história do Rio de Janeiro — arranca a farda ideológica e o manto religioso de quem fez carreira à sombra do moralismo oportunista.
A Anatomia da Crueldade e os Laudos do Horror
O horror perpetrado entre quatro paredes ganhou contornos irrefutáveis com a frieza dos dados científicos. Os laudos da necropsia de Henry não deixaram margem para narrativas de "acidente doméstico": a causa da morte foi hemorragia interna e laceração no fígado causada por uma ação contundente e violenta.
A perícia médica revelou que o menino de apenas 4 anos foi submetido a um massacre brutal, contabilizando 23 lesões de natureza violenta espalhadas pelo corpo. Entre as marcas do sadismo detectadas no corpo de Henry, estavam a laceração hepática, danos severos nos rins e hemorragia na cabeça. Cada lesão descrita nos autos funcionou como um testemunho silencioso da agonia da vítima e da fúria destrutiva de seu agressor, destruindo qualquer tentativa de defesa técnica de mascarar o crime.

Henry Borel tinha 4 anos quando morreu em casa, à noite, depois de sofrer 23 lesões — Foto: Reprodução
A Queda da Máscara do "Terrivelmente Evangélico"
O agora condenado, aos 48 anos, não era um ponto fora da curva na engrenagem do poder; ele era o subproduto de um sistema que premia a performance da virtude em detrimento da ética real. Alinhado a setores da extrema-direita fluminense e surfando na onda do conservadorismo político, o ex-vereador compreendeu cedo que o jargão religioso era o salvo-conduto perfeito para a impunidade.
Apropriando-se da retórica do "terrivelmente evangélico" — expressão que se tornou o padrão-ouro de uma época para atestar pureza moral perante o eleitorado —, ele transitava por comícios e gabinetes defendendo a família tradicional e os bons costumes. Essa encenação meticulosa servia como um escudo duplo: angariava os votos da boa-fé popular e silenciava as primeiras suspeitas. Afinal, quem ousaria desconfiar de um homem que professava a fé e a ordem com tamanha veemência?
Frente aos laudos periciais, contudo, a máscara caiu por completo. O "defensor dos valores cristãos" deu lugar ao agressor meticuloso, incapaz de empatia, que exercia o controle absoluto pelo medo, pelo espancamento e pela dor. O processo revelou que o pequeno Henry não foi a primeira vítima de sua psicopatia, mas a trágica culminância de um rastro de abusos camuflados pelo prestígio parlamentar.
O Labirinto Jurídico e a Absolvição de Monique

Foto: Reprodução/PCRJ
No outro lado do banco dos réus, o veredito trouxe uma definição jurídica contundente para a mãe de Henry. Monique Medeiros foi totalmente absolvida da acusação de homicídio. O Conselho de Sentença acolheu a tese da defesa e entendeu que a mãe não teve qualquer intenção, participação direta ou coautoria na morte do próprio filho, desmoronando a narrativa inicial que tentava colocá-la no mesmo patamar de culpa do executor.
Embora o tribunal da opinião pública muitas vezes confunda moralidade com o rigor da lei, a Justiça delimitou as responsabilidades de forma estritamente técnica. A absolvição de Monique no crime de homicídio isola o monstro em sua cela individual de culpa, deixando claro que o sadismo físico e a agressão fatal partiram exclusivamente do padrasto. Com essa decisão, Monique deixa o banco dos réus livre da acusação principal que a rotulava como cúmplice do assassinato, enquanto Jairinho assume sozinho o peso total do crime.
O Legado do Caso Henry Borel
O veredito deste 4 de junho não traz Henry de volta, nem apaga a dor impressa nas 23 lesões de seu corpo, mas cumpre a função civilizatória de dar nome e punição aos demônios reais que se escondem atrás de discursos santificados.
Que a condenação do ex-vereador a quase 44 anos de reclusão sirva como um alerta permanente sobre o perigo de blindar figuras públicas apenas pela rigidez de suas aparências doutrinárias ou por suas conveniências partidárias. Quando a política se transforma em um teatro de aparências "terrivelmente morais", o sadismo encontra o esconderijo perfeito. A justiça foi feita, mas a vigilância contra os lobos em pele de cordeiro deve ser eterna.