Saiba Mais
O PAI DO PENTECOSTALISMO: Entre o Milagroso, o Crime e o Racismo Extremo de Charles Parham
Home » Uncategorized  »  O PAI DO PENTECOSTALISMO: Entre o Milagroso, o Crime e o Racismo Extremo de Charles Parham

Charles Fox Parham

O pentecostalismo e a sua versão mais moderna, o neopentecostalismo, crescem no Brasil e em muitos países em desenvolvimento e subdesenvolvidos — com ênfase arrebatadora na América Latina e na África Subsaariana —, moldando a cultura, a política e a fé de centenas de milhões de pessoas. No entanto, se você perguntar à maioria dos fiéis quem fundou esse movimento, poucos saberão responder. E os que sabem, geralmente preferem abafar o assunto.

A historiografia cristã guarda um imenso e desconfortável esqueleto no armário. O homem que deu origem à maior revolução evangélica do século XX não foi um santo imaculado, mas sim uma figura profundamente controversa, racista, charlatã e associada a crimes graves: o pastor estadunidense Charles Fox Parham (1873–1929).

Como aponta o teólogo e sociólogo brasileiro Leonildo Silveira Campos, a trajetória de Parham é cercada de acusações que vão de fraudes financeiras e extremismo racial até sodomia e envolvimento com a Ku Klux Klan.

Neste artigo, o Demolidor de Mitos desmonta a aura de santidade e revela o lado mais sombrio do homem apelidado de "o pai do movimento pentecostal"

A Invenção do "Falar em Línguas" como Arma Divina

The Mail and Breeze (Topeka, KS), 22 de fevereiro de 1901, p. 4

Nascido em Iowa em 4 de junho de 1873, Parham rompeu com o metodismo tradicional por achar que a igreja havia se tornado fraca e burocrática. Ele fundou o movimento Fé Apostólica e, em outubro de 1900, abriu a Escola Bíblica Betel (Bethel Bible College) em Topeka, no Kansas.

Ali, Parham formulou o pilar que mudaria a história do cristianismo ocidental: a tese de que a glossolalia (o falar em línguas estranhas) não era apenas um dom espiritual raro, mas a única evidência física e indispensável do batismo no Espírito Santo. Para Parham, essas "línguas" seriam uma superarma divina concedida aos crentes para pregarem o Evangelho em qualquer país sem precisar estudar o idioma local.

A teoria, porém, caiu por terra ao ser confrontada com a realidade. Empolgado com a nova doutrina, um de seus fiéis viajou até a Índia acreditando que o Espírito Santo o faria pregar em hindi fluentemente. O resultado foi vexatório: os indianos não entenderam uma única palavra, e o missionário retornou sem ter convertido ninguém.

Segregação e o Ódio Espalhado no Corredor

William Joseph Seymour

Foto: Reprodução / Missão de Fé Apostólica (Acervo Histórico)

Apesar de ter moldado um movimento de alcance global, o preconceito de Parham era visceral e escancarado. Ele sustentava a bizarra tese teológica do Anglo-Israelismo, afirmando que os povos anglo-saxões (brancos) eram os verdadeiros descendentes das dez tribos perdidas de Israel, colocando as demais raças em patamares inferiores.

Em 1905, ao abrir uma escola bíblica em Houston, Texas, o racismo de Parham ficou registrado na história. O estudante afro-americano William Joseph Seymour — um homem de fé fervorosa que desejava aprender sobre o batismo no Espírito Santo — foi proibido de sentar-se na mesma sala que os alunos brancos. Devido às leis de segregação e à rigidez do próprio Parham, Seymour era obrigado a assistir a todas as aulas do lado de fora, sentado no corredor frio.

Ironia do destino: foi justamente esse aluno marginalizado que viajou para Los Angeles e liderou o lendário Avivamento da Rua Azusa (1906), o verdadeiro motor de expansão do pentecostalismo global, marcado pela integração racial.

Quando Parham visitou a Missão da Rua Azusa, em vez de se alegrar, ficou enfurecido ao ver negros e brancos cultuando juntos. Atacou o movimento, chamou as reuniões de "fanatismo nojento" e tentou assumir o controle — sendo expulso e banido de lá por Seymour.

Simpatia pela Ku Klux Klan e a Mentira da Arca da Aliança

Comício da Ku Klux Klan, Crystal Pool, Seattle, 23 de março de 1923

Reprodução / Cortesia da Sociedade Histórica do Estado de Washington

Conforme o movimento crescia, as alianças de Parham se tornavam cada vez mais obscuras. Na década de 1910, ele passou a ter lugar de destaque e discursar abertamente em reuniões da Ku Klux Klan (KKK), a organização terrorista de supremacia branca, usando a Bíblia para justificar a segregação.

Seu charlatismo também se manifestava na exploração financeira dos fiéis:

  • O Lenço Orado: Parham foi um dos pioneiros na comercialização da fé ao vender e enviar "lenços abençoados" pelo correio para quem pagasse por cura.
  • O Golpe da Arca da Aliança: Em 1908, afirmou publicamente que Deus havia lhe revelado a localização exata da Arca da Aliança, mas que precisava de dinheiro para viajar até a Palestina e resgatá-la. Ele arrecadou uma dinheirama de fiéis pobres e miseráveis. A viagem? Nunca aconteceu. Parham simplesmente embolsou o dinheiro e inventou a desculpa de que fora "assaltado e roubado" em Nova York.

O Tabu da Cura Divina e a Morte de Crianças

A teologia de Parham em relação à saúde era radical e implacável: ele afirmava que a cura milagrosa era um direito garantido pela fé e proibia expressamente seus seguidores de buscarem médicos ou tomarem remédios. Remédios, para ele, eram falta de fé.

O resultado dessa pregação foi trágico:

  • O próprio Parham passou a vida inteira atormentado por doenças graves e crônicas, vivendo frequentemente acamado.
  • Dois de seus filhos morreram por falta de assistência médica adequada — um aos 16 anos e outro aos 37.
  • Em 1904, o caso da pequena Nettie Smith, de apenas 9 anos, chocaria o país. Filha de seguidores fanáticos de Parham, a menina morreu após os pais recusarem tratamento médico para uma enfermidade simples e perfeitamente tratável, preferindo apenas orar.

Prisão por Sodomia e o Fim no Ostracismo

Família Parham: Charles F. Parham, no canto superior esquerdo. No canto superior direito, a cunhada de Parham, Lilian Thistlewaite. Sentada, a esposa de Parham, Sarah. Foto: Acervo Histórico / Domínio Público.

O golpe fatal na reputação de Parham ocorreu no verão de 1907, em San Antonio, Texas. O pastor foi preso e indiciado sob acusações de sodomia (sexo anal, que era crime na época), acusado de ter se envolvido abusivamente com um jovem seguidor de 19 anos, J.J. Jourdan.

Apesar de ter assinado uma confissão na época (a qual mais tarde alegou ter sido coagido a assinar), as acusações acabaram sendo retiradas formalmente sem um julgamento definitivo por falta de provas conclusivas — em grande parte devido à falta de perícias modernas e à enorme influência política de seus aliados segregacionistas e membros da Klan.

Ainda assim, o escândalo destruiu o que restava de sua credibilidade perante a sociedade. As grandes denominações pentecostais nascentes, como as Assembleias de Deus, apagaram o nome de Parham de seus livros e historiografias oficiais para proteger a imagem do movimento, elegendo William Seymour ou outros líderes como os "verdadeiros" pioneiros. Apesar dessa bagagem soturna e do esquecimento historiográfico generalizado, pregadores modernos como Marco Feliciano ainda costumam ovacionar Parham como um ícone do pentecostalismo, alimentando o mito sem confrontar as páginas escuras de sua biografia.

O Mito Desmontado

Charles Fox Parham faleceu em 29 de janeiro de 1929, aos 55 anos. Até seus últimos dias de vida, alimentou o preconceito: deixou ordens expressas para que seu corpo fosse enterrado em um cemitério onde nenhuma pessoa negra pudesse ser sepultada ao seu lado.

A história oficial da fé muitas vezes tenta dourar a pílula e esconder as feridas do passado. No entanto, os fatos mostram que o homem que articulou a teologia que hoje domina o cenário evangélico brasileiro viveu no limite entre o fanatismo religioso, o charlatanismo, o crime e a segregação racial.

Mais um mito da história que o O Demolidor de Mitos coloca no seu devido lugar.

📚 Fontes, Referências e Documentos Históricos

Pesquisas Acadêmicas e Análises Teológicas

  • CAMPOS, Leonildo Silveira.Teatro da Fé: As Estratégias de Marketing dos Neopentecostais no Brasil. São Paulo: Editora Unesp / Editora Vozes.
    • Análise do teólogo brasileiro sobre a gênese do movimento pentecostal e os aspectos historiográficos omitidos sobre a figura de Charles Parham.
  • GOFF, James R. Jr.Fields White Unto Harvest: Charles F. Parham and the Missionary Origins of Pentecostalism. Fayetteville: University of Arkansas Press, 1988.
    • A principal biografia acadêmica crítica de Parham. Documenta em detalhes o escândalo de San Antonio (1907), sua ligação com o racismo e a teologia da cura divina.
  • ANDERSON, Robert Mapes.Vision of the Disinherited: The Making of American Pentecostalism. New York: Oxford University Press, 1979.
    • Mapeamento do contexto social dos primeiros pentecostais e a relação de Parham com teorias da supremacia branca, como o Anglo-Israelismo.

Obras Primárias e Escritos do Próprio Parham

  • PARHAM, Charles F.A Voice Crying in the Wilderness. Baxter Springs, KS: Apostolic Faith Bible College, 1902.
    • Registro onde Parham established a doutrina do "falar em línguas" como evidência do batismo no Espírito Santo.
  • PARHAM, Charles F.The Everlasting Gospel. Baxter Springs, KS: Apostolic Faith Bible College, 1911.
    • Livro onde expõe suas ideias sobre o Anglo-Israelismo e sua visão segregacionista da igreja primitiva.
  • PARHAM, Sarah E.The Life of Charles F. Parham: Founder of the Apostolic Faith Movement. Commercial Printing Co., 1930.
    • Biografia oficial escrita por sua esposa que, apesar de apologética, confirma datas, itinerários e a recusa da família em aceitar tratamentos médicos convencionais.

História do Avivamento e Segregação Racial

  • BURGESS, Stanley M.; VAN DER MAAS, Eduard M. (Eds.).The New International Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements. Zondervan, 2002.
    • Documentação histórica sobre a segregação imposta a William J. Seymour na escola de Houston e o posterior rompimento entre Parham e a Missão da Rua Azusa.
  • MARTIN, Larry.Charles Fox Parham: The Unlikely Father of Modern Pentecostalism. Whitaker House, 2022.
    • Coletânea de jornais de época e registros sobre as acusações judiciais no Texas e a morte da menina Nettie Smith em 1904.

Arquivos de Imprensa da Época

  • San Antonio Light (1907): Reportagens e notas de cobertura da prisão de Charles F. Parham e J.J. Jourdan sob acusações de conduta imoral (sodomia) em San Antonio, Texas.
  • The Topeka Daily Capital (1901): Cobertura dos primeiros relatos do "falar em línguas" na Bethel Bible College em Topeka, Kansas.

Gostou desta investigação? Compartilhe o artigo, comente sua opinião abaixo e siga @odemolidordemitos nas redes sociais para não perder nenhuma verdade incômoda sobre os grandes nomes da história!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *