Líder religioso de 51 anos é acusado de cometer ao menos 13 crimes sexuais ao longo de 20 anos contra frequentadoras de igreja no bairro Jardim Vitória. Entre as vítimas está uma criança que tinha 12 anos na época dos abusos.

Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) / Cecília Pederzoli/TJMG
Na última terça-feira (28), a Justiça de Minas Gerais realizou, no Fórum Lafayette, no Centro de Belo Horizonte, a primeira audiência de instrução do processo contra um pastor de 51 anos acusado de cometer uma série de crimes sexuais contra frequentadoras de sua igreja. Segundo reportagem da jornalista Clara Mariz, do portal O Tempo, o líder religioso foi indiciado pela Polícia Civil por 13 crimes, divididos entre seis estupros, cinco violações sexuais mediante fraude e duas importunações sexuais. Pelo menos sete mulheres já denunciaram o investigado.
Durante a sessão de terça-feira, a Justiça ouviu duas testemunhas de acusação, incluindo uma das vítimas. Uma nova audiência de instrução foi agendada para o dia 1º de dezembro de 2026, data em que a Justiça deve ouvir o acusado. Apesar da gravidade das acusações e de o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) ter reiterado o pedido de prisão preventiva durante a audiência, o pastor continua respondendo ao processo em liberdade. O caso tramita em segredo de justiça.
USO DA BÍBLIA E MANIPULAÇÃO ESPIRITUAL POR MAIS DE DUAS DÉCADAS

Imagem: ChatGPT
As investigações apontam que os abusos ocorriam há pelo menos 20 anos, tanto no espaço físico da igreja quanto na residência do pastor, localizada no mesmo terreno do templo, no bairro Jardim Vitória, região Nordeste da capital.
O modus operandi do acusado envolvia o uso sistemático de passagens bíblicas — como Hebreus 13:17 ("Obedecei aos vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam pelas vossas almas...") — e de sua autoridade religiosa para intimidar, doutrinar e convencer as vítimas de que deviam obediência cega a ele. Uma das denunciantes, identificada ficticiamente como Maria, relatou que aquela foi a primeira igreja que frequentou na vida e que desde cedo aprendeu que o pastor deveria ser honrado e respeitado como representante de Deus na Terra. O primeiro assédio ocorreu quando ele a chamou para o piso superior do templo, onde moravam alguns fiéis, e a mandou sentar em seu colo.
A partir desse contato inicial, a manipulação psíquica e a coerção espiritual se intensificaram. Em forte depoimento prestado à reportagem, a vítima relembrou a justificativa usada pelo abusador: “Ele sempre dizia que todas as ações dele eram conduzidas pelo Espírito Santo, que ele era ungido por Deus e que sabia o que estava fazendo. Falava que eu não precisava ter medo, nem vergonha. Um dia, ele pediu para me ver sem roupa, eu neguei, mas ele insistiu, e, sem perceber, acabei me despindo. Ele me deitou na cama e penetrou em mim. Eu chorei, pedi para parar, mas ele não parou. Depois, me levou à farmácia e me fez tomar uma pílula do dia seguinte. Eu perdi minha virgindade ali”, contou.
ABUSO DE MENOR E RETALIAÇÃO ÀS VÍTIMAS
Entre os relatos mais graves apurados pela Polícia Civil e conduzidos pela delegada Larissa Mascotte está o caso de uma vítima que tinha apenas 12 anos quando começou a sofrer os abusos. A investigação revelou ainda que a mãe da criança também foi uma das vítimas do mesmo líder religioso. Ao descobrir o ocorrido através da filha, a família se afastou definitivamente da igreja.
Para evitar que os crimes fossem descobertos, o pastor adotava estratégias de difamação preventiva. Antes que as vítimas pudessem denunciá-lo, o réu espalhava rumores entre os membros da congregação, afirmando que as mulheres eram "loucas", que haviam se "desviado da fé" ou "se perdido no mundo". Quando ameaçado de denúncia, ele também usava favores passados — como a ajuda no custeio de cursos técnicos — para acusar as próprias vítimas de chantagem.
MEDO DE REPRESÁLIAS E PERMANÊNCIA NO ALTAR
Embora os abusos físicos contra Maria tenham cessado em 2018 — ano em que, segundo ela, o suspeito parou por não conseguir mais ter ereção —, as ameaças e a tortura psicológica continuaram até meados de 2023. A decisão de romper o silêncio ocorreu quando a mulher descobriu que uma amiga da época de escola também estava sendo abusada.
Mesmo após o indiciamento oficial e o avanço da ação penal, o réu continua frequentando e exercendo a liderança na mesma igreja. Essa situação mantém as vítimas e seus familiares sob constante clima de medo e insegurança em relação a possíveis represálias ou novos atos de intimidação na comunidade. Em seus depoimentos prestados durante a fase de inquérito policial, o homem optou por exercer o direito constitucional de permanecer em silêncio.