
Edimar se enfureceu ao saber da saída das fiéis, que fundaram um novo templo
Imagem: Reprodução/Redes Sociais
Em 2016, a escuridão da rodovia BA-263, em Vitória da Conquista, foi palco de uma das barbáries mais estarrecedoras da história policial baiana. Consumido pela inveja e pelo desespero de ver seu império religioso ruir, o pastor Edimar da Silva Brito, de 38 anos à época do crime, transformou o discurso divino em um banho de sangue. "Quem mexe com a obra que Deus me deu morre", ele dizia repetidamente aos seguidores antes de colocar em prática seu plano macabro. Por trás da fachada sagrada, contudo, escondia-se uma rotina de traições conjugais e calotes financeiros: Edimar traía a esposa abertamente e havia pegado dinheiro emprestado com Carlos Eduardo de Souza, de 50 anos, recusando-se a pagar a dívida.
A gota d'água veio quando o pastor Carlos Eduardo e sua esposa, a professora e pastora Marcilene Oliveira Sampaio, de 38 anos, cansados das atitudes de Edimar, romperam com a Igreja Evangélica Tabernáculo da Adoração e fundaram a Igreja Profetizando Vida. Marcilene, que era mestre em Linguística e lecionava no curso de Letras – Língua Portuguesa e Literaturas na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), arrastou uma multidão de fiéis ao lado do marido. A debandada foi maciça: a maioria dos membros seguiu o casal, cortando a fonte de dízimos, poder e prestígio de Edimar. Cego pelo ódio e pela exposição de suas farsas, o líder religioso jurou vingança contra aqueles que ousaram contrariá-lo.

Carlos Eduardo de Souza com hematomas após escapar de tentativa de homicídio. Foto: Reprodução/ Tv Bahia
Enquanto os comparsas mantinham as vítimas imobilizadas e rendidas sob a ameaça da arma no matagal, foi o próprio pastor Edimar quem assumiu diretamente a execução cruel. Com extrema violência, o líder religioso desferiu múltiplos golpes com blocos de concreto e tijolos na cabeça da professora Marcilene e de sua sobrinha, provocando o esmagamento dos crânios e a exposição de massa cefálica. A intenção do bando era ainda mais macabra: planejavam invadir o sítio da família para exterminar todas as testemunhas.

Pastora Marcilene Oliveira Sampaio de Souza e a sua sobrinha, Ana Cristina. Imagem: Reprodução/Redes Sociais
SUBVERSÃO DA FÉ E NOVO CRIME NA FAMÍLIA
Mesmo após ser denunciado e responder pelo duplo homicídio brutal das duas mulheres em Vitória da Conquista, a perversidade de Edimar da Silva Brito continuou a fazer vítimas. Beneficiado por um alvará de soltura em julho de 2018 que permitiu que ele aguardasse o julgamento das mortes em liberdade, o pastor voltou a ser preso em flagrante no ano seguinte, em outubro de 2019, na cidade vizinha de Itarantim. Desta vez, o homem que pregava a moralidade foi capturado pela polícia sob a acusação de ter estuprado a própria enteada, uma jovem de 21 anos. Segundo a polícia, o criminoso aproveitou-se de um momento de vulnerabilidade da vítima para forçar a relação sexual, sendo localizado e detido pela Polícia Militar em uma residência após tentar fugir do local.
REVEZES JUDICIAIS E A TRAMITAÇÃO DO PROCESSO
A tramitação do processo até a responsabilização dos culpados foi marcada por uma longa e complexa batalha nos tribunais. A acusação contra os envolvidos foi sustentada com firmeza pelo promotor de Justiça José Junseira e presidida pela juíza Ivana Pinto Luz, do Tribunal do Júri da Comarca de Vitória da Conquista. O Ministério Público da Bahia apresentou provas contundentes para desmontar a tese defensiva e evidenciar a premeditação e o motivo torpe de um homem que usou a estrutura religiosa para arquitetar um crime bárbaro por ganância e vingança.
AS CONDENAÇÕES E AS PENAS DOS CULPADOS

Fábio e Adriano foram presos logo depois do crime, em Vitória da Conquista. (Foto: Michele Damasceno/TV Sudoeste)
A resposta do Poder Judiciário ao crime brutal que chocou a Bahia resultou nas seguintes sentenças e desdobramentos para os envolvidos:
- Edimar da Silva Brito (Mandante e executor do crime): Condenado pelo Tribunal do Júri a 32 anos de prisão em regime fechado por homicídio qualificado por motivo torpe, meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa das vítimas. A Justiça determinou a execução imediata da pena e seu recolhimento ao Conjunto Penal de Vitória da Conquista.
- Fábio de Jesus Santos (Pastor e comparsa): Julgado e condenado pelo Tribunal do Júri a 21 anos e 4 meses de reclusão por sua participação direta e auxílio na rendição e imobilização das vítimas durante o duplo homicídio qualificado.
- Adriano Silva dos Santos (Segurança/Comparsa): Chegou a ser condenado a 30 anos de prisão no primeiro julgamento em 2016, mas a defesa recorreu e obteve a anulação do júri, culminando em sua absolvição posterior por falta de provas conclusivas de coautoria.