Aldevino Ribeiro Sales foi condenado pela Justiça de MT a ressarcir o erário; auditoria revelou gastos com carros de luxo, viagens e faturas de cartão de crédito de familiares.
Por Nilton Cesar Santana | 06 de Junho de 2026
Uma trama que mistura religião, agiotagem, carros de luxo e desvio milionário de dinheiro público chocou o estado de Mato Grosso. O protagonista dessa história real — que bem poderia ser o enredo de uma série de ficção — é o pastor evangélico Aldevino Ribeiro Sales. Ele foi condenado pela Justiça a devolver mais de R$ 4 milhões que sumiram dos cofres do Cartório de Registro de Imóveis de Colíder (a 650 km de Cuiabá), além de pagar uma multa de igual valor, totalizando um rombo que ultrapassa os R$ 8 milhões.
A decisão, proferida pela juíza Nathália de Assis Camargo Franco, expõe as entranhas de um esquema onde a fé e a fraude caminhavam lado a lado.
O Cartório que Virou "Empresa Familiar"

Foto: Reprodução / Redes Sociais
Aldevino assumiu o cartório de Colíder de forma interina entre os anos de 2013 e 2015. Por lei, todo o lucro de um cartório que ultrapassa o teto constitucional deve ser repassado ao Funajuris (Fundo de Apoio ao Judiciário), sendo revertido em melhorias para a própria população.
No entanto, a auditoria do Tribunal de Justiça de Mato Grosso descobriu que o pastor transformou o local em uma extensão de suas finanças pessoais e familiares. O dinheiro das taxas pagas pelos cidadãos para registrar seus imóveis simplesmente desaparecia antes de chegar ao Estado.
O Destino do Dinheiro: Da Igreja aos Agiotas

Foto: Reprodução / Assessoria de Comunicação da Anoreg-MT
O que mais impressionou os investigadores foi a criatividade e a audácia na hora de gastar o dinheiro público. O "sangramento" das contas do cartório tinha destinos variados e bizarros:
- Financiamento da Fé: Aldevino usava os recursos públicos para pagar dízimos expressivos e financiar templos. Parte do dinheiro foi direto para as contas da "Igreja Nacional Batista Fogo para o Brasil", fundada pelo próprio pastor.
- Dívidas com o Crime: O erário público foi utilizado para quitar débitos milionários que o pastor mantinha com agiotas.
- Ostentação e Mimos: A lista de compras inclui consórcios de carros de luxo, viagens de férias com agências de turismo, faturas de cartões de crédito pessoais, mensalidades de faculdades particulares para os filhos e até gastos banais, como compras de supermercado e combustível.
"O requerido utilizou a serventia como se fosse sua propriedade privada, misturando as contas públicas com as suas despesas pessoais e de seus familiares", apontou a investigação.
A Punição (Até Agora)
Além da pancada financeira de R$ 8 milhões (entre o ressarcimento e a multa civil), a magistrada aplicou duras sanções ao pastor:
- Perda da função pública (ele já havia sido afastado do cartório após o início das investigações).
- Suspensão dos direitos políticos por 8 anos (ficando proibido de votar ou ser votado).
- Proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios fiscais.
Por se tratar de uma decisão de primeira instância, Aldevino Ribeiro Sales ainda pode recorrer da sentença nos tribunais superiores. O espaço segue aberto para a manifestação da defesa do acusado.