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O COBRADOR QUE SAIU QUASE CEGO DA PRISÃO: inocentado de abuso, Luiz Alves processou Magno Malta — e senador virou réu em 2026
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Acusado de violentar a própria filha de dois anos, Luiz Alves de Lima passou nove meses preso, relatou sessões brutais de tortura e perdeu completamente a visão de um olho. Anos depois, perícias ajudaram a desmontar a acusação. O caso chegou à Justiça contra autoridades envolvidas e ganhou um novo capítulo em 2026, quando Magno Malta se tornou réu por injúria e difamação.

Foto: Paulo Galvão

Durante anos, o senador e pastor Magno Malta construiu grande parte de sua projeção nacional em torno do combate à pedofilia. Em 2009, ele presidia no Senado a chamada CPI da Pedofilia, comissão que ganhou enorme exposição na imprensa e percorreu o Brasil acompanhando investigações e denúncias. É justamente desse período que surge uma história que até hoje persegue a trajetória pública do parlamentar: o drama do então cobrador de ônibus Luiz Alves de Lima. A própria Agência Senado confirma que Malta era presidente da CPI naquele período.

TUDO COMEÇOU COM UMA CRIANÇA DE DOIS ANOS

Em abril de 2009, a esposa de Luiz, Cleonice Conceição Silva, levou a filha do casal, então com apenas dois anos, para atendimento médico. A menina apresentava irritação na região genital. Surgiu a suspeita de violência sexual, o Conselho Tutelar foi acionado e o caso rapidamente chegou à polícia.

Luiz e Cleonice acabaram presos. O cobrador passou a ser investigado sob a acusação devastadora de ter abusado sexualmente da própria filha, enquanto sua mulher foi apontada inicialmente como conivente.

O que posteriormente apareceu nos autos, entretanto, mudaria completamente o rumo da história. A menina apresentava quadro relacionado a oxiúros, parasitas capazes de provocar intensa coceira e inflamação na região genital. Um exame posterior também constatou que o hímen da criança estava intacto.

MAGNO MALTA ENTRA NA DELEGACIA

Plenário do Senado Federal durante sessão não deliberativa.

Em discurso, à tribuna, senador Magno Malta (PL-ES).

Foto: Roque de Sá/Agência Senado

Naquela época, Magno Malta não era delegado, promotor nem juiz. Era senador da República e presidente da CPI da Pedofilia.

Mesmo assim, sua participação no episódio foi muito além de um simples acompanhamento parlamentar, segundo Luiz e documentos posteriormente divulgados.

De acordo com reportagem da Folha de S.Paulo, no terceiro dia de detenção de Luiz, Malta apareceu na delegacia acompanhado por várias pessoas e pela imprensa. O próprio relatório policial registrou que o senador manifestou a opinião de que Luiz seria o responsável pelo crime, baseando sua avaliação em seu “sentimento pessoal e experiência profissional”.

Para Luiz, o que ocorreu ali foi uma condenação pública antes que a Justiça tivesse sequer estabelecido sua culpa. Seu então defensor público, Franz Simon, declarou posteriormente à Folha que houve um “teatro” em torno do episódio e que Luiz acabou transformado em bode expiatório.

Era uma acusação capaz de destruir instantaneamente a reputação de qualquer pessoa. No caso de Luiz, a destruição não ficaria apenas no campo moral.

NOVE MESES ATRÁS DAS GRADES

Foto: Reprodução / Folha de S.Paulo

Luiz Alves de Lima passou aproximadamente nove meses preso preventivamente no Centro de Detenção Provisória de Cariacica, no Espírito Santo.

Foi para a cadeia acusado de um dos crimes mais odiados pela sociedade. Ainda não havia condenação.

Segundo seu relato, foi justamente dentro do sistema prisional que começou um verdadeiro inferno.

Luiz afirmou ter sofrido repetidas sessões de tortura praticadas por homens encapuzados. Disse ter levado choques, espancamentos e sofrido sufocamento. Relatou ainda que, no dia de seu aniversário, foi colocado algemado dentro de um tonel com água e gelo.

Uma notícia-crime recebida pelo Ministério Público Federal em 2018 atribuiu a agentes do centro de detenção práticas que teriam incluído choques e sufocamento com saco plástico.

DENTES DESTRUÍDOS E A VISÃO PERDIDA

Foto: Reprodução / Folha de S.Paulo

As consequências físicas foram devastadoras.

Quando a Folha de S.Paulo entrevistou Luiz em 2018, ele já havia perdido completamente a visão do olho direito e conservava apenas cerca de 25% da visão do olho esquerdo. Para conseguir ler documentos, precisava usar uma lupa.

Também apresentou dentes severamente danificados. Luiz atribuiu as lesões às agressões sofridas enquanto esteve preso.

Em entrevista ao Intercept Brasil, contou que nenhum dos ataques teria sido cometido por outros presos. Segundo sua versão, os agressores seriam agentes que apareciam encapuzados.

O ex-cobrador saiu da prisão praticamente incapaz de voltar à vida que levava anteriormente.

A ACUSAÇÃO COMEÇA A DESMORONAR

Laudo médico que comprova a integridade do hímen da menina.

Foto: Reprodução

Depois de recuperar a liberdade, Luiz passou a buscar documentos, prontuários médicos e novos exames que pudessem provar aquilo que sempre sustentou: que não havia abusado da filha.

O caso ganhou uma reviravolta decisiva.

Uma perícia posterior constatou a integridade do hímen da criança, contrariando o exame que havia contribuído para levantar a suspeita inicial.

Além disso, apareciam os registros sobre o quadro de oxiúros, capaz de provocar justamente irritação e inflamação na região genital.

Em fevereiro de 2012, um novo laudo voltou a contrariar a interpretação inicial. Segundo documentos reproduzidos pelo Século Diário, o processo posteriormente apontou grave erro na avaliação anterior e registrou a existência de processo inflamatório associado a bactérias e vermes.

Finalmente, em 2016, Luiz foi absolvido da acusação. A Folha registrou que ele havia sido inocentado pela Justiça, enquanto o Intercept informou que o processo foi encerrado em julho daquele ano depois de comprovada a integridade do hímen da menina.

O homem que havia entrado na cadeia carregando uma das acusações mais destrutivas possíveis saía da batalha judicial inocentado — mas com sequelas que nenhum julgamento poderia apagar.

A FILHA E A FAMÍLIA TAMBÉM PAGARAM O PREÇO

A tragédia ultrapassou os muros da prisão.

Cleonice ficou 42 dias presa, segundo reportagens da Folha e do Intercept. A filha pequena passou um período afastada dos pais e chegou a viver em abrigo.

Luiz relatou que os filhos sofreram preconceito e humilhações depois que a acusação ganhou repercussão pública. Anos depois, ainda dizia carregar a dor de ter perdido boa parte da infância da própria filha.

“ELES IAM ME MATAR”: A ACUSAÇÃO MAIS GRAVE DE LUIZ

Depois de inocentado, o ex-cobrador passou da posição de acusado à de autor de ações judiciais.

Em 2017, Luiz e familiares ingressaram com ação envolvendo o Estado do Espírito Santo, Magno Malta, policiais e o médico ligado ao laudo inicial, buscando reparação pelos danos decorrentes do episódio.

A Justiça também determinou o pagamento de uma pensão mensal de R$ 2 mil pelo Estado em razão da incapacidade e das consequências sofridas por Luiz.

Houve ainda uma ação cível posterior movida especificamente contra Magno Malta. Segundo o Folha Vitória, esse processo foi julgado improcedente e arquivado. Isso, porém, não encerrou todas as disputas entre Luiz e o senador.

2022: O CASO VOLTA DURANTE A ELEIÇÃO

Treze anos depois da prisão, a história voltaria ao centro de uma nova batalha.

Em 27 de setembro de 2022, quando Magno Malta fazia campanha para retornar ao Senado, foram publicados vídeos em suas redes sociais tratando do caso do cobrador.

Em uma das gravações, Malta utilizou expressões como “rataiada” e falou em pessoas que sairiam “do esgoto” durante o período eleitoral para ressuscitar acusações contra ele.

O delegado aposentado Márcio Lucas Malheiros de Oliveira também apareceu nas gravações e classificou acusações feitas por Luiz como falsas, negando uma articulação para sua prisão e contestando os relatos de tortura.

A defesa de Luiz entendeu que as declarações atingiram novamente sua honra e apresentou queixa-crime.

2026: MAGNO MALTA VIRA RÉU

A disputa chegou a um novo estágio em 28 de maio de 2026.

Uma audiência de conciliação foi realizada na Justiça do Espírito Santo. Não houve acordo.

Com isso, a juíza Gisele Souza Oliveira, da 4ª Vara Criminal de Vitória, recebeu a queixa-crime, e Magno Malta e o delegado aposentado Márcio Lucas Malheiros de Oliveira tornaram-se réus por injúria e difamação, segundo decisões e reportagens publicadas no Espírito Santo.

O processo está relacionado às declarações feitas nos vídeos de 2022 — e não significa que Magno Malta tenha sido condenado pelas torturas denunciadas por Luiz em relação aos acontecimentos de 2009.

Também é importante esclarecer: tornar-se réu significa que a Justiça recebeu a acusação e que haverá processo para analisar o caso. Não equivale a condenação.

Até as informações públicas consultadas para esta reportagem, não foi localizada sentença condenatória definitiva de Magno Malta nessa ação criminal.

O QUE DIZ MAGNO MALTA

Juiz entendeu que a permanência dos conteúdos poderia ampliar danos à reputação do parlamentar.Carlos Moura/Agência Senado

A defesa de Magno Malta rejeita a acusação de que os vídeos tenham configurado crime.

Segundo manifestação divulgada pelo Folha Vitória, a assessoria do senador argumentou que Luiz não foi nominalmente citado nas gravações e que as declarações ocorreram em contexto eleitoral, protegidas, na visão da defesa, pela liberdade de expressão e pelo direito à crítica.

Malta também declarou confiar na Justiça e no devido processo legal.

Quando questionado anteriormente pela Folha sobre o episódio de 2009 e as denúncias de violência sofridas pelo cobrador, o parlamentar afirmou que pedófilos deveriam ser investigados, condenados e presos, mas que eventuais agressões e outras ilegalidades precisariam ser apuradas para identificar seus autores.

DE ACUSADO A INOCENTADO — E DEPOIS AUTOR DA ACUSAÇÃO

A história de Luiz Alves de Lima é um alerta brutal sobre o perigo da condenação antecipada.

Em 2009, ele era o homem apontado como monstro.

Foi preso.

Foi exposto.

Passou nove meses atrás das grades.

Relatou ter sido torturado.

Perdeu totalmente a visão de um olho e quase toda a visão do outro.

Viu a família ser despedaçada e a filha ser retirada de seu convívio.

Depois vieram outros exames.

Vieram os documentos médicos.

A acusação desmoronou.

E veio a absolvição.

Dezessete anos depois daquele episódio, uma das figuras políticas mais associadas publicamente ao caso, Magno Malta, passou à condição de réu em outro processo movido a partir das acusações do homem que um dia esteve sentado no banco dos acusados.

A ironia judicial não apaga as diferenças entre os processos nem autoriza conclusões antecipadas. Mas deixa uma pergunta impossível de ignorar:

Quem devolve a um homem inocentado os nove meses de liberdade, a visão perdida e os anos roubados de sua família?

FONTES CONSULTADAS

Agência Senado; Folha de S.Paulo; Intercept Brasil; A Gazeta; Século Diário; Folha Vitória. As informações relativas às supostas ordens de tortura ou de morte atribuídas a Magno Malta são apresentadas como alegações de Luiz Alves de Lima, e não como fatos judicialmente comprovados.

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