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ENTRE O PÚLPITO E O CONGRESSO: MARCO FELICIANO QUER SEU VOTO DE NOVO
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Pastor que transformou o “Sai da frente, Satanás!” em marca registrada volta às urnas carregando votos favoráveis às reformas Trabalhista e da Previdência, a polêmica dos R$ 157 mil nos dentes e antigas declarações contra negros e pessoas LGBT

Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados

O pastor Marco Antonio Feliciano, deputado federal pelo PL de São Paulo, está novamente atrás dos votos do eleitor paulista. Aos 53 anos, ele registrou candidatura para disputar mais um mandato de deputado federal nas eleições de 2026, usando o número 2270. Feliciano já foi eleito para a Câmara em 2010, 2014, 2018 e 2022 e agora tenta prolongar sua permanência em Brasília.

A trajetória do parlamentar é praticamente inseparável de sua carreira nos púlpitos. Pregador pentecostal conhecido nacionalmente, Feliciano construiu uma imagem baseada em discursos inflamados, batalhas espirituais, conservadorismo nos costumes e enfrentamento aos adversários. Foi nesse universo que popularizou um de seus bordões mais conhecidos: “Sai da frente, Satanás!”.

DO PÚLPITO PARA O COFRE PÚBLICO

Foto: Reprodução / Redes Sociais

A mistura entre religião e política ajudou Marco Feliciano a permanecer durante anos entre os nomes mais conhecidos da bancada evangélica. Mas, quando o pastor abandona momentaneamente o púlpito e ocupa sua cadeira no Congresso, entra em cena outra realidade: o deputado é remunerado pelo contribuinte.

É justamente dessa dupla identidade — pastor de um lado e político profissional do outro — que nasce a provocação desta manchete: “Mamando na igreja e no Estado”. Trata-se de uma expressão editorial e irônica de O Demolidor de Mitos, e não de uma acusação de apropriação ilegal de recursos de igrejas ou do governo.

O que é fato é que Feliciano consolidou sua projeção como líder religioso e, paralelamente, construiu uma carreira política de quatro mandatos consecutivos na Câmara, buscando agora o quinto.

QUANDO O “SIM” DE FELICIANO CHEGOU AO TRABALHADOR

Para pedir votos, político geralmente apresenta promessas. Mas existe algo mais concreto que qualquer promessa: o histórico de como ele já votou quando teve o poder nas mãos.

Em outubro de 2016, Marco Feliciano votou SIM à PEC 241, conhecida como PEC do Teto de Gastos, tanto no primeiro quanto no segundo turno na Câmara. A proposta estabeleceu um limite para as despesas primárias federais. Na época, seus defensores argumentavam que a medida era necessária para controlar as contas públicas; adversários alertavam que ela poderia limitar a expansão de áreas como saúde, educação e assistência social.

No ano seguinte veio outra votação histórica. Em 26 de abril de 2017, o deputado votou SIM à Reforma Trabalhista, apoiando mudanças profundas na Consolidação das Leis do Trabalho. Entre elas estavam a regulamentação do trabalho intermitente e novas possibilidades para que negociações coletivas prevalecessem sobre a legislação em determinados pontos.

Em 2019, chegou a Reforma da Previdência. Mais uma vez, Feliciano votou SIM. A reforma instituiu idade mínima para aposentadoria e alterou regras de cálculo e transição. Para seus defensores, era indispensável para a sustentabilidade do sistema; para sindicatos e opositores, tornou a aposentadoria mais difícil para milhões de trabalhadores.

É por esse conjunto de decisões que críticos classificam esse histórico como “votos contra o povo”. A expressão é uma avaliação política. Os fatos objetivos são os votos de Feliciano — e nesses três grandes episódios, Teto de Gastos, Reforma Trabalhista e Reforma da Previdência, o pastor apertou o botão SIM.

E OS FAMOSOS R$ 157 MIL NOS DENTES?

Se existe uma polêmica que virou praticamente inseparável da imagem de Marco Feliciano, ela está dentro de sua boca.

Em 2019 veio a público que a Câmara dos Deputados havia reembolsado aproximadamente R$ 157 mil referentes a um tratamento odontológico realizado pelo parlamentar. Feliciano alegou sofrer de dores crônicas provocadas pelo bruxismo e afirmou que precisava corrigir problemas na articulação da mandíbula, além de fazer procedimentos envolvendo coroas e implantes.

O detalhe que aumentou ainda mais a repercussão foi que o pedido de ressarcimento havia sido inicialmente rejeitado pela área técnica da Câmara. Após recurso e apresentação de documentação, o pagamento acabou autorizado.

Feliciano sustentou que não havia cometido qualquer irregularidade, afirmou que o tratamento era relacionado à saúde e não apenas à estética e apresentou uma justificativa que ganhou enorme repercussão: “Minha boca é minha ferramenta”.

Não há base para afirmar que Feliciano tenha roubado ou desviado os R$ 157 mil. O ressarcimento foi autorizado dentro do sistema de assistência disponível aos parlamentares. A polêmica está justamente no contraste entre um tratamento desse valor pago com recursos públicos e a realidade de milhões de brasileiros que dependem do SUS para conseguir atendimento odontológico básico.

“AFRICANOS DESCENDEM DE ANCESTRAL AMALDIÇOADO”

Foto: Reprodução / YouTube

O histórico de Marco Feliciano também ultrapassa as questões econômicas.

Em março de 2011, o então deputado publicou no Twitter uma declaração que provocou enorme repercussão: “Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato.” Na sequência, relacionou o continente africano a paganismo, miséria, doenças e fome.

Feliciano rejeitou as acusações de racismo e sustentou que estava apresentando uma interpretação teológica de passagens bíblicas. A explicação, porém, não impediu que suas declarações se tornassem parte central da controvérsia que acompanharia sua trajetória política nos anos seguintes.

Quando assumiu a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, em 2013, sua escolha provocou manifestações de organizações ligadas aos movimentos negro e LGBT.

POLÊMICAS COM A POPULAÇÃO LGBT

Foto: Reprodução / Redes Sociais

As declarações de Feliciano sobre homossexualidade também estão entre os episódios mais controversos de sua carreira.

Em audiência realizada na Câmara, em 2012, afirmou: “Negro nasce negro, não tem como mudar; mas quem nasce homossexual pode mudar.” A declaração surgiu durante discussões relacionadas à atuação de psicólogos e à possibilidade de mudança de orientação sexual.

Em outra entrevista, ao discutir HIV e Aids, Feliciano declarou que “o estilo de vida homossexual é perigoso”. Também utilizou expressões como “ditadura gay” ao criticar movimentos LGBT.

O parlamentar sempre argumentou que suas posições estão protegidas por sua liberdade religiosa e por sua interpretação da Bíblia. Seus críticos, por outro lado, consideram que declarações desse tipo reforçam preconceitos contra grupos que também são representados pelo Congresso Nacional.

QUATRO MANDATOS DEPOIS, O PASTOR QUER MAIS

Agora, em 2026, Marco Feliciano volta ao eleitor pedindo mais quatro anos em Brasília.

O discurso religioso, o conservadorismo e as guerras culturais continuam sendo elementos centrais de sua identidade política. Mas existe algo que nenhum discurso de campanha consegue apagar: o histórico parlamentar.

Ali estão registrados seus votos.

Ali estão suas escolhas.

Ali estão os momentos em que precisou decidir não como pregador diante de uma igreja, mas como deputado diante de milhões de trabalhadores, aposentados e contribuintes.

Feliciano apoiou o Teto de Gastos, a Reforma Trabalhista e a Reforma da Previdência. Também protagonizou a polêmica do tratamento odontológico de aproximadamente R$ 157 mil reembolsado pela Câmara e acumulou declarações sobre negros e pessoas LGBT que ainda hoje são lembradas por seus críticos.

Em ano eleitoral, certamente haverá espaço para muita pregação, muita promessa e muita guerra espiritual.

Mas antes de ouvir novamente um “Sai da frente, Satanás!”, talvez o eleitor devesse fazer uma pergunta bem mais terrena:

quando chegou a hora de votar em Brasília, de que lado Marco Feliciano ficou?

O Demolidor de Mitos — demolindo as bases do sistema religioso escravagista.

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