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FÉ E FRAUDE: Como pastores usaram o Mercado Livre para desviar milhares de reais e fugir para a Europa
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Por Nilton Cesar Santana | 9 de junho de 2026

Imagem/Gemini

O manto da fé evangélica voltou a ser utilizado como escudo para a criminalidade cibernética no Brasil. Deflagrada na última terça-feira (9) pela Polícia Civil de São Paulo, a "Operação Chargeback" revelou um sofisticado esquema de estelionato digital operado por líderes religiosos. O alvo central da fraude foi a plataforma de pagamentos do Mercado Livre, utilizada pela quadrilha para desviar centenas de milhares de reais.

O esquema era liderado por um casal de pastores que, enquanto pregava a moralidade, gerenciava uma empresa de fachada sediada dentro de um templo religioso na capital paulista.

A Igreja de Fachada e os Alvos

As investigações conduzidas pela 3ª Delegacia de Crimes Cibernéticos (3ª DICCIBER), braço do DEIC de São Paulo, apontam o casal de pastores como os mentores da organização criminosa:

  • Marley Garcia de Almeida Frades (Pastor e líder do grupo)
  • Aline Lopes Pereira da Silva (Pastora e esposa de Marley)

A grande ironia do caso está no local escolhido para sediar as operações financeiras ilegais: o endereço oficial da Igreja Virtude, localizada no bairro da Vila Prudente, na Zona Leste de São Paulo. Era nesse mesmo prédio que funcionava a empresa jurídica utilizada pelo casal para intermediar o fluxo do dinheiro sujo.

Além do casal, a investigação aponta o envolvimento de um terceiro pastor, cuja identidade ainda é mantida sob sigilo pela polícia, e que está entre os presos da ação. Ao todo, a Justiça paulista expediu 8 mandados de prisão temporária e 15 de busca e apreensão, alcançando cidades como São Paulo, Guarulhos, São Caetano do Sul e desdobramentos no Rio Grande do Norte.

Fuga para a Europa

Embora três envolvidos tenham sido capturados logo nas primeiras horas da manhã, os chefes do esquema conseguiram escapar do cerco policial. A Polícia Civil confirmou que o pastor Marley Garcia e sua esposa Aline Lopes fugiram para a Espanha.

Apesar de estarem fora do território nacional, os mandados de prisão contra ambos já foram expedidos pela Justiça e os nomes devem ser incluídos na difusão vermelha da Interpol.

O Golpe: Como a quadrilha burlava o Mercado Livre

O grupo explorava de forma cirúrgica uma vulnerabilidade conhecida no mercado digital como chargeback (o direito de contestação de compra que todo usuário de cartão de crédito possui). O esquema funcionava em quatro etapas essenciais:

  1. Geração de Links: Os pastores geravam links de pagamento falsos através da plataforma Mercado Pago (o ecossistema financeiro do Mercado Livre).
  2. Simulação de Venda: Esses links eram enviados para pessoas ligadas à própria organização criminosa, que faziam "compras" fictícias usando cartões de crédito.
  3. Esvaziamento de Contas: Assim que a plataforma liberava o saldo das vendas nas contas da empresa de fachada (na própria igreja), os pastores transferiam o dinheiro rapidamente para contas de laranjas.
  4. A Contestação: Com o dinheiro já sacado, os supostos compradores acionavam as operadoras dos cartões alegando que não reconheciam aquela despesa. O valor era estornado, e o Mercado Livre era obrigado a arcar sozinho com o prejuízo financeiro.

O Tamanho do Rombo

Apenas no recorte analisado na primeira fase do inquérito — correspondente ao mês de dezembro de 2024 — a polícia identificou 27 transações fraudulentas idênticas. O prejuízo direto comprovado foi de R$ 263.512,82.

No entanto, o DEIC trabalha com a convicção de que o volume real movimentado pela quadrilha ao longo dos últimos anos seja imensamente maior. Computadores, celulares e documentos apreendidos na Vila Prudente passarão por perícia detalhada para rastrear o destino final dos milhões desviados.

Os investigados responderão formalmente pelos crimes de associação criminosa e estelionato eletrônico, cujas penas combinadas podem ultrapassar os 10 anos de reclusão. O espaço permanece aberto para que as defesas dos citados se manifestem.

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