Com Bíblia em punho e gritos de condenação, extremista evangélico foi denunciado na polícia após cercar casa de praticante de Umbanda em Campo Grande; caso joga luz sobre o fenômeno do racismo religioso na periferia
Por Nilton Cesar Santana | 07 de junho de 2026

Foto: Reprodução / Redes Sociais
Um caso de perseguição e intolerância religiosa está sob investigação da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul. O umbandista Paulo Henrique da Silva, de 34 anos, registrou um boletim de ocorrência por discriminação e preconceito religioso contra o pastor evangélico e pregador de rua Sérgio Britto. O episódio ocorreu no bairro Parque do Lageado, na capital Campo Grande, e foi registrado na Depac Centro.
A Dinâmica da Perseguição
De acordo com o depoimento da vítima e com registros em vídeo feitos por testemunhas, o pastor iniciou a abordagem na via pública, confrontando inicialmente os familiares do umbandista.
Ao tomar conhecimento da situação, Paulo Henrique foi ao encontro do religioso. A partir desse momento, iniciou-se um comportamento de perseguição (stalking): o pastor passou a seguir a vítima pela rua até a porta de sua residência — local onde também funcionam as atividades do terreiro. Durante o trajeto, o pregador proferiu ofensas diretas à crença alheia, afirmando textualmente:
"Filhodo cão, todo macumbeiro, feiticeiro e umbandista vai ser julgado e parar no inferno."
O ápice do constrangimento ocorreu quando o pastor decidiu realizar um ato direcionado e hostil em frente ao imóvel da vítima. O homem ajoelhou-se na calçada, ergueu uma das mãos em direção à casa e, segurando a Bíblia com a outra, passou a orar em voz alta, gritando trechos bíblicos e sentenças de condenação espiritual contra os moradores.
À polícia, a vítima relatou que a conduta do pastor gerou forte abalo psicológico, constrangimento público e quebrou totalmente a tranquilidade de sua família.
O Paradoxo do Racismo Religioso: A Religião do Colonizador
Casos como o de Campo Grande inflamam um debate complexo que há anos é acompanhado por sociólogos, antropólogos e movimentos negros no Brasil: o uso da fé neopentecostal como ferramenta de apagamento da ancestralidade.
Especialistas apontam que o avanço de vertentes extremistas do neopentecostalismo nas periferias brasileiras gerou um paradoxo social. Populações majoritariamente negras e pardas são incentivadas a adotar uma teologia baseada em padrões eurocêntricos de 'moralidade' e, ao mesmo tempo, a rejeitar e combater violentamente a cultura e a espiritualidade de seus próprios antepassados.
Historiadores classificam esse processo como uma continuidade das estratégias coloniais. No período da escravidão, o colonizador europeu utilizava a demonização dos Orixás e dos ritos africanos para destituir o povo escravizado de sua identidade e humanidade. O resultado moderno é um fenômeno doloroso para os movimentos sociais: o próprio cidadão negro, inserido e moldado por essas estruturas eclesiásticas, transforma-se no agente que vai até a porta do terreiro para tentar silenciar a fé de seus ancestrais.
A Cartilha da Demonização: O Legado de Edir Macedo
Esse comportamento agressivo de guerra espiritual nas periferias não nasce ao acaso; ele possui uma base literária e teológica bem definida no Brasil. Cientistas da religião apontam o livro Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios?, publicado por Edir Macedo (fundador da Igreja Universal do Reino de Deus), como o principal manual sistemático de demonização das religiões de matriz africana no país.
Na obra — que na década de 2000 chegou a ser alvo de ações do Ministério Público Federal por incitação ao preconceito —, o autor afirma categoricamente que todas as divindades e entidades da Umbanda e do Candomblé são anjos caídos dedicados a destruir a vida dos fiéis. Ao associar problemas sociais como a miséria, doenças e desestrutura familiar aos terreiros, o livro moldou a mentalidade de milhares de pregadores e fiéis nas últimas décadas.
O ataque desferido pelo pastor em Campo Grande reflete diretamente a reprodução dessa cartilha, transformando vizinhos e templos de matriz africana em alvos literais de um combate religioso.
O Contraponto: O que diz o pastor investigado
Procurado para apresentar sua versão sobre o ocorrido, o pastor Sérgio Britto negou o teor criminoso das acusações e justificou sua conduta com base nos seguintes pontos:
- Direito de Pregação: Alegou que atua frequentemente como pregador de rua em espaços públicos e que sua intenção era apenas transmitir ensinamentos bíblicos através da pregação e da oração.
- Falta de Intenção de Ofender: Sustentou que não pretendia discriminar indivíduos, mas sim alertar sobre o que sua vertente religiosa considera práticas contrárias às Escrituras.
- Ataques Mútuos: O religioso afirmou em seu depoimento que também foi alvo de xingamentos por parte dos moradores do local durante o bate-boca.
Enquadramento Jurídico
A Polícia Civil agora analisa os vídeos gravados pelos celulares das testemunhas. A investigação criminal busca definir a fronteira entre a liberdade de expressão religiosa (assegurada por lei) e o crime de praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de religião, agravado pelo ato de perseguição e perturbação do sossego na porta do templo alheio.