Por Nilton Cesar Santana | 31 de maio de 2026

Ilustração gerada por inteligência artificial (Gemini)
O abismo entre o altar e a realidade das ruas brasileiras nunca foi tão escandaloso. De um lado, o cidadão comum, aquele que acorda de madrugada e não tem dinheiro para a passagem de ônibus ou sequer uma bicicleta simples para ir trabalhar ou frequentar o culto. Do outro, lideranças da fé que tratam jatinhos particulares e helicópteros como "ferramentas de trabalho" comuns e reclamam publicamente que suas aeronaves executivas precisam ser trocadas por modelos mais novos e milionários.
O caso mais emblemático e recente dessa desconexão veio do pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Sem nenhum constrangimento, o pastor veio a público reclamar de um "drama" que atinge o topo da pirâmide da fé: o seu jatinho particular, um modelo Gulfstream, é do ano de 1985 e, segundo ele, está velho e precisa ser substituído por um modelo mais moderno.
Se a ostentação aérea já era uma afronta para o fiel que financia tudo com o suor do dízimo, a aprovação da PEC 5/2023 (a PEC das Igrejas) na Câmara dos Deputados oficializou o deboche. Entramos na era onde até o querosene de aviação e a manutenção dessas máquinas voadoras de luxo serão purificados pelo manto da imunidade tributária total.
Mito detonado. Vamos rasgar o discurso de coitadinho e mostrar quem realmente vai pagar o pato por essa frota ungida.
A Manobra dos "Bens Necessários"

Bancada evangélica durante sessão da Câmara — Foto: Cristiano Mariz
A bancada evangélica e o Centrão juram que a PEC serve apenas para não tributar o material de construção de pequenas igrejas e os mantimentos de asilos. Conversa fiada. O texto estende a imunidade tributária para a aquisição de bens e serviços necessários à manutenção das atividades das entidades religiosas.
Quem vai definir se um helicóptero biturbina ou o novo jatinho de Silas Malafaia é "necessário" para a evangelização? Os advogados desses megaimpérios já têm a resposta na ponta da língua: "A aeronave é indispensável para o deslocamento rápido do pastor." Pronto. Com essa brecha gigante e vaga por design, o luxo inacessível vira "instrumento de culto" com zero de imposto.
O Pastor de Jatinho e o Fiel a Pé

Foto: Reprodução/Redes Sociais
O cinismo é matemático e cruel:
- Na base: O dizimista contribui com o pouco que tem, muitas vezes caminhando quilômetros a pé porque o dinheiro do transporte faz falta na mesa de casa. Ele sustenta a promessa da Teologia da Prosperidade, acreditando que sua vida vai mudar.
- No topo: A prosperidade funciona em via única. Ela sobe e se materializa em hangares privados, frotas blindadas e aeronaves que exigem centenas de milhares de reais por mês apenas em custos fixos de manutenção — um valor impensável para o cidadão que assiste ao culto no banco do templo.
Agora, com o mecanismo de crédito previsto na PEC, essas grandes corporações da fé receberão de volta, direto na conta bancária, os impostos embutidos em seus gastos de consumo. É o cashback da ostentação.
O Milagre da Multiplicação da Nossa Conta
A conta da Reforma Tributária é exata: se o governo abre mão de arrecadar bilhões de reais blindando o consumo de grandes instituições e de seus líderes milionários, esse dinheiro precisa vir de outro lugar.
Adivinhe de onde virá? O imposto que o pastor deixa de pagar no querosene do seu novo avião será compensado pelo aumento da alíquota geral que incide sobre o trabalhador. Você vai pagar mais caro na sua despesa diária para subsidiar a troca da aeronave de 1985 da liderança religiosa.
Enquanto eles voam alto, protegidos pelo lobby político de Brasília, o pagador de impostos assiste a tudo lá de baixo, com a sola do sapato gasta, financiando o combustível do milagre alheio.

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