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Veneno e obsessão: a ‘irmã da igreja’ que matou mãe e filhas para ficar com pescador na Bahia
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Foto: Reprodução/Redes Sociais

Uma história de obsessão, falsa religiosidade e crime premeditado chocou a Bahia e o Brasil. No distrito de Nagé, em Maragogipe (Recôncavo Baiano), a marisqueira Adriane Ribeiro Santos da Conceição, de 23 anos, e suas duas filhas pequenas tiveram suas vidas ceifadas em um intervalo de apenas 15 dias. O que a princípio parecia uma fatalidade sem explicação revelou-se um plano frio e calculado executado por quem frequentava o mesmo templo religioso.

Do Congresso da Igreja Universal ao Apadrinhamento de R$ 15 Mil

Casamento de Adriane e Jeferson. Foto: Reprodução/Redes sociais

A aproximação entre as famílias começou em um congresso da Igreja Universal do Reino de Deus, denominação frequentada por Adriane e por seu marido, o pescador Jeferson Brandão. Foi nos encontros de fé que Elisângela Almeida Oliveira se aproximou do casal. Apresentando-se como uma mulher dedicada à obra religiosa e profundamente generosa, Elisângela conquistou rapidamente a confiança de Adriane e Jeferson.

Quando o casal expressou o sonho de oficializar a união na igreja, mas enfrentou dificuldades financeiras, Elisângela assumiu o papel de apadrinhadora. Ela investiu cerca de R$ 15 mil para custear a cerimônia e a festa, pagando desde o vestido de noiva até a decoração e os doces. O gesto benemérito garantiu a ela o status de melhor amiga e o livre acesso à rotina da casa da família em Nagé.

A Falsa Mascarada de "Mãe na Fé" e a Paixão Obsessiva

Foto: Reprodução/Redes sociais

Por trás da fachada de missionária dedicada e da narrativa pública de que tratava Jeferson como um "filho na fé", ocultava-se uma obsessão doentia pelo pescador. Originária de Conceição da Feira, onde ela e o marido mantinham um negócio de venda de doces e salgados, Elisângela passou a negligenciar o próprio comércio. Ela simplesmente abandonou a rotina e o negócio local para ficar hospedada longos períodos na residência do casal em Maragogipe.

Com o passar do tempo, essa presença constante passou a incomodar: "Ela dizia que ia passar um final de semana e queria ficar a semana inteira", relembrou o viúvo Jeferson em depoimento. Ela interferia na dinâmica doméstica e demonstrava um comportamento cada vez mais invasivo. Diante das alegações da acusada de que mantinha um afeto maternal pelo rapaz, Jeferson rebateu categoricamente: "Isso não era amor de mãe, era paixão. Uma mãe não mata as pessoas que o filho ama". Segundo as investigações, a acusada arquitetou o crime para eliminar a esposa e as filhas do irmão na fé para ocupar definitivamente o lugar de Adriane.

A Sequência Macabra e o Apelo Final da Criança: "Pai, Venha Cá"

Mãe e filhas — Foto: Reprodução/TV Bahia

Aproveitando o livre trânsito que conquistou na casa e a total confiança da família, o veneno — um inseticida agrícola extremamente tóxico, conhecido popularmente como chumbinho — foi administrado gradualmente em refeições e doces fornecidos às vítimas, como panquecas e chocolates.

O Primeiro Sinal: O cachorro de estimação da família foi o primeiro a morrer após ingerir alimento contaminado na residência, um fato que na época não gerou alarme.

30 de Julho de 2018 (Segunda-feira): A filha mais velha, Gleysse Kelly, de apenas 5 anos, estava no sofá ao lado de Elisângela quando ingeriu o alimento contaminado. Minutos depois, sentindo os efeitos devastadores do veneno, a garotinha gritou pelo pai: "Ó, pai, venha cá!". Ao se aproximar, Jeferson já encontrou a filha perdendo os movimentos e expelindo secreções. A menina deu entrada no hospital em parada cardiorrespiratória e o óbito foi tratado inicialmente como causa natural.

6 de Agosto de 2018 (Segunda-feira): Exatamente sete dias depois, a caçula Ruteh, de 2 anos, passou mal gravemente após consumir alimento preparado na casa e faleceu na UPA de Maragogipe.

13 de Agosto de 2018 (Segunda-feira): Durante um culto na Igreja Universal, Adriane passou mal subitamente diante dos fiéis após consumir alimento/chocolate fornecido pela acusada. Levada ao posto de saúde, não resistiu. Dias antes de falecer, em meio ao luto pelas filhas, a jovem havia publicado nas redes sociais: "Amores, eu lutarei para chegar no Céu, para abraçar vocês #NaEternidadeVouTeVer".

Como a Polícia Chegou a Elisângela

Foto: Reprodução/TV Bahia

A identificação de Elisângela como a principal suspeita do crime ocorreu por meio de um trabalho integrado entre a Polícia Civil e a perícia técnica, fundamentado nos seguintes pontos:

O Padrão Temporal das Mortes: A repetição exata dos óbitos em três segundas-feiras consecutivas e com sintomas idênticos (vômitos, perda de movimentos e parada cardiorrespiratória) levou o delegado do caso a descartar fatalidade e instaurar inquérito por homicídio.

A Exumação e o Laudo Pericial: Ao investigar o histórico recente da família e descobrir que até o cachorro havia morrido misteriosamente, a polícia solicitou a exumação do corpo da primeira criança. O laudo toxicológico do Departamento de Polícia Técnica (DPT) confirmou a presença de dose letal de chumbinho nos tecidos de todas as vítimas.

O Cerco aos Frequentadores da Casa: Depoimentos de vizinhos e parentes apontaram que Elisângela era a única pessoa de fora da comunidade que frequentava a residência diariamente e manipulava os alimentos da cozinha.

Busca e Apreensão: Mandados cumpridos na residência de Elisângela, em Conceição da Feira, permitiram a apreensão de recipientes e elementos químicos para confronto pericial.

Acareação e Confissão: Diante das contradições em seus relatos e do avanço das provas periciais, Elisângela acabou confessando o envenenamento durante uma acareação na delegacia, admitindo o desentendimento com a vítima e a obsessão por Jeferson.

Tensão na Cidade: Tentativa de Invasão à Delegacia e Revolta Popular

Foto: Reprodução/TV Bahia

A brutalidade das mortes consecutivas e a confirmação de que mãe e filhas haviam sido envenenadas provocaram uma onda de comoção e fúria em Maragogipe e na região.

Quando a polícia efetuou a prisão dos suspeitos e os conduziu para depor, a comoção popular atingiu o ápice. Uma multidão de moradores revoltados cercou a unidade policial e promoveu uma tentativa de invasão à delegacia, exigindo justiça e tentando linchar a acusada. Diante do cerco agressivo e do risco iminente de invasão do prédio público, as forças de segurança precisaram montar uma operação especial e reforçar o efetivo policial para conter os populares e transferir os presos sob escolta e em sigilo para uma unidade prisional em Salvador.

O Papel do Marido da Acusada e a Tentativa de Encobrimento

Foto: Reprodução/Redes Sociais

Elisângela não agia sem apoio em seu núcleo familiar. Na época dos crimes, ela era casada com Valci Boaventura Soares, que também acabou arrastado para o centro das investigações policiais.

Ao retornar de um dos depoimentos na delegacia, testemunhas e familiares ouviram Elisângela gritar de forma desesperada com Valci: "Não falou nenhuma besteira não, né?! Olha para não ter falado nada de errado!". Em outubro de 2018, Valci foi preso juntamente com a esposa por suspeita de atuar na coação de testemunhas e ocultação de provas para proteger a acusada.

Desdobramentos e Impunidade

Jeferson após a tragédia. Foto: Reprodução/Redes sociais

O caso arrastou-se por anos nos tribunals com sucessivos recursos da defesa. A concessão de prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica à acusada gerou revolta e indignação entre os moradores de Maragogipe e familiares das vítimas, que cobram uma resposta definitiva do Judiciário.

Com o término das etapas de instrução e a decisão de pronúncia mantida pelas instâncias superiores, o julgamento de Elisângela Almeida Oliveira por júri popular está previsto para o segundo semestre de 2026. O desfecho nos tribunais é aguardado como a etapa final para encerrar a impunidade sobre uma das maiores e mais cruéis tragédias já registradas no Recôncavo Baiano.

Fontes de pesquisa e apuração:

Inquérito da Polícia Civil do Estado da Bahia (Delegacia Territorial de Maragogipe / 4ª COORPIN - Santo Antônio de Jesus); Laudos toxicológicos do Departamento de Polícia Técnica (DPT-BA); Reportagens do portal Correio24horas, G1 Bahia e cobertura da imprensa local do Recôncavo Baiano.

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