
Ao lado de Flávio Bolsonaro, governador de SP Tarcísio de Freitas participa de culto na Igreja Mundial do Poder de Deus — Foto: Caiuá Maia /Divulgação Campanha Tarcísio de Freitas
O 7 de Setembro no Brasil há muito deixou de ser apenas a data cívica tradicional de desfiles militares, hastear de bandeiras e celebração da independência nacional. Nos últimos anos, o feriado se consolidou como o palco central de um projeto político que une templos, profecias e a estética militar em uma estratégia de mobilização de massa.
Quando líderes políticos trocam o palanque laico do Estado pelo altar de grandes igrejas, o que acontece com a fé e com a democracia?
O Transe, o Xerecanto e a Profecia do Manto

Foto: Reprodução/Instagram
A instrumentalização da religião na política moderna não acontece apenas nos discursos das cúpulas partidárias; ela é desenhada na base, por meio de símbolos e performances extremas. Cenas chocantes que viralizaram no 7 de Setembro mostram uma missionária bolsonarista deitada ao chão, em transe com manifestações de línguas estranhas (estilo xerecanto), realizando movimentos brutos com os braços, cobrindo-se com a bandeira do Brasil como um manto profético e decretando a queda do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.
Essa teatralidade transforma o culto em um tribunal informal. A disputa institucional deixa de ser um debate democrático e passa a ser tratada como uma guerra santa, onde a fé sincera do povo é capturada para dar uma falsa aparência de ordem divina a interesses estritamente partidários.
A Estética da Guerra e a Marcha dos Varões

Foto: Reprodução/Instagram
Além do transe nos altares, essa lógica ganha corpo através do fardamento e da disciplina. Imagens registradas dentro de templos mostram grupos de homens — conhecidos tradicionalmente como "varões" — marchando em cadência militar, vestindo terno e gravata, com passos sincronizados diante do altar. Sob a síntese exata de que "parece um quartel, mas é uma igreja", essa estética transpõe a hierarquia das Forças Armadas para a liturgia religiosa.
Na prática desse projeto de poder, o "inimigo" a ser combatido deixa de ser uma figura espiritual invisível e assume um rosto humano: qualquer pessoa que se oponha à pauta, qualquer instituição que imponha limites e qualquer cidadão que discorde da cartilha. Esse processo de desumanização atinge níveis tão profundos que a divisão ultrapassa a política, rompendo laços de afeto e transformando até mesmo familiares em opositores a serem neutralizados.
O Altar como Balcão Eleitoral

Foto: Ana Paula Bimbati/UOL
A simbiose entre poder e púlpito ficou evidente na escolha de figuras públicas durante as celebrações do feriado cívico. Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas optou por abrir mão do desfile militar oficial no Anhembi para comparecer a um culto de jovens obreiros na Igreja Mundial do Poder de Deus, no Brás.
Acompanhado por figuras como o senador Flávio Bolsonaro, Tarcísio assumiu o púlpito para pregar trechos bíblicos, enquanto Flávio utilizou o espaço sagrado para orações com forte apelo político e pedidos de intervenção nos Três Poderes. Quando a liderança do Estado valida campanhas eleitorais disfarçadas de culto, o altar perde sua função espiritual e se converte em uma ferramenta de barganha eleitoral.
A Inversão da Cegueira e a Rifa da Nação
Em meio a essa polarização, pastores aliados à extrema-direita costumam bradar nos microfones pedindo para que Deus remova a "cegueira espiritual" da população. Contudo, a verdadeira contradição reside em quem de fato está manipulando a percepção pública.
Cego é quem não consegue enxergar que está sendo instrumentalizado por lideranças que, sob o manto do evangelho, agem cumprindo a metáfora daqueles que vieram para roubar, matar e destruir — roubando a consciência e destruindo laços comunitários. A estratégia é calculada: foca-se exaustivamente em pautas morais e guerras de costumes para gerar indignação constante. Enquanto a base discute comportamentos alheios, esses supostos patriotas atuam nos bastidores entregando o patrimônio, as riquezas e as empresas estatais brasileiras a interesses estrangeiros, especialmente dos Estados Unidos. A bandeira nacional é erguida como disfarce no altar, mas a soberania do país é rifada na prática.
Conclusão: O Resgate da Cidadania
O povo evangélico brasileiro é composto por milhões de trabalhadores honestos, solidários e detentores de uma fé sincera. No entanto, quando profecias sob encomenda e maniqueísmos radicais são empregados para transformar vizinhos em inimigos e justificar projetos de poder, a igreja corre o risco de se transformar em um comício de intolerância.
O 7 de Setembro precisa urgentemente retornar à sua essência: o dia da independência e da cidadania de todos os brasileiros, livre de barganhas entre o púlpito e o poder político.
Por Nilton Cesar Santana
Para conferir total sustentação jornalística, rigor investigativo e contexto factual à matéria e ao vídeo-ensaio, as principais bases de referência, fatos públicos e coberturas que fundamentam esta análise englobam:
- Cobertura Política do 7 de Setembro: Os atos paralelos realizados no feriado da Independência em São Paulo, com foco especial na mobilização da oposição e nos discursos direcionados contra o Supremo Tribunal Federal (STF).
- A Agenda Oficial vs. Altar: Reportagens de portais de notícias e veículos de imprensa (como Metrópoles, Jovem Pan e Estadão) registrando a ausência do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, no desfile cívico-militar oficial no Sambódromo do Anhembi, optando por comparecer ao Culto de Jovens Obreiros na Igreja Mundial do Poder de Deus, no Brás, ao lado do senador Flávio Bolsonaro e do apóstolo Valdemiro Santiago.
- Fenômenos Virais e Performances Litúrgico-Políticas: Registros audiovisuais de atos e cultos pentecostais circulando nas redes sociais e plataformas digitais, evidenciando o uso de elementos performáticos extremos (como o transe, a utilização da bandeira nacional como manto profético e manifestações de forte apelo político nos altares).
- Debate Sociológico e Político sobre a Instrumentalização da Fé: Artigos de análise de mídia e ensaios sobre a transposição de estéticas militares ("varões da marcha") e pautas político-partidárias para o interior de templos religiosos no Brasil contemporâneo.