Por Nilton Cesar Santana | 24 de julho de 2026

Tatiana e o filho, Itaberly: prisão por homicídio e ocultação de cadáver (Reprodução/Veja SP)
O extremismo religioso e a intolerância familiar atingiram o seu ápice mais devastador no município de Cravinhos, interior de São Paulo. O assassinato do jovem Itaberli Lozano, de apenas 17 anos, chocou o país e trouxe ao centro do debate público as consequências de discursos fundamentalistas que se sobrepõem aos laços de afeto, cuidado e proteção que deveriam definir a maternidade.
O crime ocorreu após a mãe da vítima, Tatiana Ferreira Lozano Pereira, que justificava sua forte rejeição à homossexualidade do filho com base em suas convicções religiosas, armar uma emboscada. Itaberli havia passado a morar com a avó materna para fugir das agressões físicas da mãe, mas foi atraído de volta à residência sob um pretexto que misturava a promessa de reconciliação com o apelo de sua fé:
"Venha ver a mamãe, vamos orar juntos. Jesus te ama e quer te libertar do pecado".
Acreditando no chamado religioso e materno, o adolescente retornou ao imóvel. No entanto, ao entrar, deparou-se com uma armadilha friamente calculada. Com o auxílio de dois rapazes contratados e um menor de idade, o jovem foi submetido a uma sessão de espancamento e, na sequência, morto a facadas no pescoço pela própria mãe. O corpo do adolescente foi levado para um canavial e queimado com o apoio do padrasto da vítima para ocultar as provas. Durante as investigações, testemunhas e postagens em suas mídias sociais confirmaram que a rotina na igreja evangélica era a espinha dorsal da hostilidade contra o jovem.
⚖️ A RESPOSTA DO JUDICIÁRIO

Taiana Lozano está presa desde janeiro deste ano na Penitenciária Feminina de Tremembé, SP (Foto: Ronaldo Gomes/EPTV)
O Tribunal do Júri aplicou penas severas aos envolvidos no crime:
- A mãe: Tatiana Ferreira Lozano Pereira foi condenada a 25 anos e 8 meses de prisão em regime fechado por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver. Ela cumpre pena na penitenciária de Tremembé (SP).
- Os cúmplices: Victor Roberto da Silva e Miller da Silva Barissa, que participaram do crime, foram condenados a 21 anos e 8 meses de reclusão cada um.
🧠 REFLEXÃO: A HERANÇA ARCAICA E O SOFRIMENTO INVISÍVEL
Críticos, historiadores e cientistas sociais apontam que tragédias como esta evidenciam o perigo de se pautar a moralidade contemporânea em livros arcaicos. Escrita por homens em sociedades patriarcais, nômades e guerreiras de milhares de anos atrás, a Bíblia carrega em sua estrutura códigos de conduta violentos que, longe de serem meras metáforas, historicamente servem como combustível para a opressão de minorias. A hostilidade à homossexualidade, a submissão feminina e a validação da escravidão não são invenções de leitores modernos; são reflexos de uma cosmovisão primitiva registrada nas próprias páginas do texto sagrado.
Ao sacralizar uma literatura da Antiguidade e tratá-la como verdade absoluta e atemporal, o dogmatismo religioso cria um terreno fértil para que o preconceito seja terceirizado para a vontade divina. Como ilustra a própria frase usada para atrair a vítima, o agressor deixa de se ver como intolerante e passa a se enxergar como um executor da "lei de Deus", mascarando o ódio sob o véu de uma suposta "libertação do pecado".
Essa dinâmica alimenta diretamente a violência psicológica e as práticas de "cura gay" em lares fundamentalistas. O sofrimento dos filhos de religiosos que enfrentam essa realidade se desdobra em frentes críticas:
- Homofobia Internalizada: O jovem cresce ouvindo que sua identidade é uma "abominação", gerando culpa esmagadora e crise de identidade.
- Tortura Psicológica: Jejuns forçados, isolamentos e aconselhamentos pastorais coercitivos que anulam a saúde mental do indivíduo.
- Ruptura de Vínculos: Dados apontam que a rejection familiar joga milhares de jovens LGBTQIA+ na depressão, na ideação suicida ou na vulnerabilidade do desabrigo de rua.
🏛️ JUSTIÇA E CONSCIÊNCIA SOCIAL

Itaberlly com a mãe, o irmão cacula e o padrato (Reprodução/Facebook)
Embora a liberdade de crença seja um direito constitucional garantido no Brasil, o Poder Judiciário reforça que nenhuma convicção religiosa pode servir de escudo para o crime. A punição severa aplicada neste caso funciona como um limite legal imprescindível, mas a verdadeira transformação exige um esforço coletivo: o de questionar criticamente os dogmas arraigados nos lares e nos púlpitos, garantindo que a ética do direito à via e a proteção aos jovens LGBTQIA+ prevaleçam sobre qualquer herança cultural ou religiosa intolerante.