Por Nilton Cesar Santana | 2 de junho de 2026

Foto: Reprodução / Redes Sociais
Uma das maiores contradições do meio evangélico é a fixação obsessiva com a aparência e a fiscalização do corpo alheio, enquanto a misericórdia, o amor ao próximo e o acolhimento são frequentemente colocados em segundo plano.
Esse cenário de intolerância e fiscalização moral ganhou um novo e polêmico capítulo na Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Pernambuco (IEADPE), na congregação do município de Gameleira, na Zona da Mata Sul do estado. Em um episódio que viralizou nas redes sociais, o pastor Waldemir Farias gerou forte repercussão pública ao criticar abertamente fiéis que frequentam a academia utilizando roupas de ginástica (especificamente calças legging).
Na sua fala, o líder religioso chegou a proibir que o cumprimentassem com a "Paz do Senhor" caso estivessem vestindo trajes esportivos, alegando que o corpo exposto geraria "vergonha" porque "as carnes ficam balançando", e cobrou dos maridos uma postura de controle rigoroso sobre as vestes de suas esposas.
Esse tipo de posicionamento levanta um debate profundo que o site O Demolidor de Mitos se propõe a analisar: o mito de que a conduta moral é medida pelos centímetros ou pelo ajuste de tecido de uma vestimenta.
A Funcionalidade Ignorada: Roupa de Treino é Equipamento de Saúde
O primeiro grande absurdo do discurso proferido pelo pastor Waldemir Farias é transformar uma peça de vestuário utilitária em um debate puramente malicioso e moral. A calça legging não foi desenhada por uma conspiração contra os bons costumes; ela existe por razões estritamente anatômicas, ergonômicas e de segurança:
- Segurança Mecânica: Roupas largas em ambiente de musculação representam riscos reais. Tecidos frouxos podem prender facilmente em polias, engrenagens de esteiras, presilhas e eixos de aparelhos, provocando acidentes graves.
- Ergonomia e Mobilidade: Exercícios como agachamentos, passadas e atenção à postura exigem amplitude total de movimento. A legging atua como uma segunda pele, permitindo que as articulações se movam livremente sem que o tecido trave ou rasgue.
- Fisiologia e Regulação Térmica: Tecidos esportivos modernos ajudam na dispersão do suor e na compressão muscular leve, o que melhora a circulação e previne lesões durante o esforço físico.
Foto: Reprodução / macedo_personalcoach / Instagram
Condenar o uso da legging na academia sob o pretexto de manter a "sã doutrina" da IEADPE é o equivalente a exigir que um operário trabalhe na construção civil sem botinas ou capacete por motivos estéticos. A peça é uma ferramenta de treino para quem busca saúde e bem-estar.
A Visão Psicanalítica: A Domesticação dos Corpos e a Repressão
Para compreendermos a raiz dessa obsessão pelo controle das vestimentas, vale recorrer à ciência da mente. Para Sigmund Freud, o pai da psicanálise, a sexualidade é uma força vital, inerente ao ser humano desde a infância, que a cultura e a sociedade tentam incessantemente domesticar e reprimir para impor ordem social. Quando um líder religioso sobe ao altar para demonizar uma calça de academia e monitorar as "carnes que balançam", ele está agindo como o agente máximo dessa engrenagem de opressão e domesticação do corpo feminino.
O moralismo estrito tenta sufocar essa força vital e ditar regras puramente externas. No entanto, a psicanálise também nos ensina que tudo aquilo que é violentamente reprimido não desaparece; apenas é empurrado para o inconsciente, costumando retornar mais tarde de forma distorcida e perigosa.
A Cortina de Fumaça do Moralismo: A Hipocrisia dos Escândalos Ocultos
É exatamente aí que desabamos na maior das contradições: a hipocrisia religiosa. Há um padrão psicológico claro no comportamento de lideranças excessivamente legalistas. A obsessão pública por vigiar a intimidade alheia e os "pecados estéticos" das fiéis quase sempre funciona como uma cortina de fumaça para esconder os próprios conflitos internos com a repressão de suas pulsões.
Enquanto o pastor gasta tempo fiscalizando as mulheres que cuidam da saúde, os bastidores do cenário religioso frequentemente sangram com escândalos reais e devastadores de imoralidade, adultério, abusos e pornografia.
Muitos daqueles que sustentam discursos ferozes de "santidade têxtil" para controlar o rebanho são os mesmos que, no ambiente privado, cedem às práticas mais degradantes de duplicidade moral. Usa-se o moralismo contra a calça legging alheia como uma tática de distração: julga-se o fiel comum para blindar a liderança de qualquer escrutínio profundo sobre seu próprio caráter. É o clássico "coar um mosquito e engolir um camelo" (Mateus 23:24).
O Machismo Religioso e a Visão de Posse
Esse controle ganha contornos ainda mais graves ao validar o machismo estrutural revestido de divindade. Ao dizer na pregação que o marido "deixa frouxo" e que "quem vai ver o seu corpo sou eu", o líder rebaixa a mulher à condição de propriedade.
O corpo da mulher não é um território público da liderança da igreja para fiscalização, e tampouco uma posse sem vontade própria do cônjuge. A modéstia cristã deve nascer da consciência e da liberdade do indivíduo, nunca de uma imposição baseada no medo da exclusão social ou na opressão doméstica. O olhar malicioso de quem assiste não pode se tornar a régua que dita a liberdade de quem treina.
Quando regras arcaicas estabelecidas por uma denominação e/ou um líder religioso se tornam mais importantes que o próprio ser humano, a religião mostra o que, normalmente, é: um sistema abusivo de controle psicológico e social.