
Arte/Times Brasil | CNBC
Daniel Vorcaro e Fábio Faria são citados em mensagens sobre a organização de uma festa de Halloween em São Paulo.
Mensagens encontradas pela Polícia Federal revelam uma festa de Halloween com cerca de 120 mulheres para apenas 20 homens, preferência por mulheres jovens, proibição de celulares e preocupação explícita com vazamentos. Nos bastidores desse universo aparecem Daniel Vorcaro, o ex-ministro Fábio Faria e conexões que atravessam política, grandes negócios e o meio evangélico.
Nota editorial: a expressão “suruba terrivelmente evangélica” é utilizada pelo O Demolidor de Mitos como metáfora crítica para a mistura de poder, dinheiro, política, moralismo e religião. Não há evidência publicada de que tenha ocorrido uma orgia ou atividade sexual coletiva durante a festa.
Entre Deus, dinheiro e os bastidores do poder
Durante anos, setores da política brasileira transformaram expressões como “Deus, pátria e família” em bandeiras públicas. Fé, defesa da família e bons costumes passaram a funcionar não apenas como convicções religiosas, mas também como poderosas ferramentas de construção de imagem.
É justamente por isso que as mensagens envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro, chamam tanta atenção.
Reportagem da revista piauí, baseada em mensagens de WhatsApp incorporadas a relatório da Polícia Federal, revelou os bastidores de uma festa privada organizada por Vorcaro em São Paulo, em 31 de outubro de 2023. Segundo a publicação, Faria ajudava a transmitir convites a homens que interessavam ao anfitrião, enquanto o promoter Tiago Polo trabalhava na composição da lista feminina.
Não se trata simplesmente de descobrir que homens ricos frequentam festas. A questão de interesse público está nas conexões: empresários, políticos, autoridades mencionadas nas conversas, preocupação extrema com exposição e uma rede de relacionamentos que se estende do sistema financeiro ao universo religioso.
120 mulheres para apenas 20 homens


Madame, em São PauloFoto: Divulgação
A festa aconteceu no Madame Underground Club, o tradicional Madame Satã, no bairro da Bela Vista, em São Paulo.
De acordo com as mensagens reveladas pela piauí, a composição planejada para a noite chegou a aproximadamente 120 mulheres e apenas 20 homens. O próprio Vorcaro reclamava que precisaria reduzir a quantidade de convidadas porque o espaço já estava ficando cheio.
Era uma proporção de aproximadamente seis mulheres para cada homem.
A reportagem afirma ainda que a festa contou com produção sofisticada, decoração de Halloween, comidas e bebidas e atrações como Swedish House Mafia, Solomun e Vintage Culture. Nem mesmo fornecedores podiam circular livremente com celulares.
“Só menina nova”
Um dos trechos mais controversos das conversas diz respeito ao perfil desejado para as convidadas.
Vorcaro escreveu:
“Só menina nova.”
As mensagens também mencionavam contatos relacionados às agências Mega, Ford, Joy e Allure. A piauí procurou representantes do setor; houve negativas de que as agências tivessem fornecido mulheres para serviços sexuais ou participado de qualquer esquema dessa natureza. Posteriormente, Tiago Polo também afirmou que sua atividade se restringia à atuação profissional como promoter e negou ter intermediado prostituição ou serviços sexuais.
Essa diferenciação é fundamental: as mensagens demonstram a procura por determinado perfil de convidadas, mas não autorizam concluir que as mulheres presentes fossem prostitutas ou acompanhantes.
“Telefone na porta”
Se o número de mulheres já chamava atenção, talvez o elemento mais revelador fosse a preocupação com aquilo que poderia sair de dentro da festa.
Vorcaro determinou:
“Telefone na porta.”
Fábio Faria respondeu:
“E segurança dentro.”
Nas conversas, Faria demonstrava preocupação com a possibilidade de alguma convidada publicar registros e mencionava o vazamento recente de uma festa de Neymar. Vorcaro também deixou claro seu temor de exposição ao afirmar:
“Se vazar, eu tô morto.”
Segundo a reportagem, uma equipe específica havia sido mobilizada para controlar registros e evitar vazamentos.
O vídeo apareceu — e começou o desespero
A blindagem não funcionou completamente.
No dia seguinte à festa, Vorcaro descobriu que uma convidada havia publicado no TikTok imagens do evento. As mensagens mostram uma reação agressiva do banqueiro, que exigiu a retirada imediata da publicação. O vídeo acabou sendo apagado.
A piauí relata ainda que seguranças dificultavam até fotografias da parte externa do estabelecimento.
O episódio produz uma pergunta inevitável: por que uma festa descrita pelos próprios envolvidos como legítima exigia tamanho aparato contra câmeras e celulares?
Sigilo em uma festa privada não constitui crime. Pessoas públicas também têm direito à privacidade. Mas, quando os próprios diálogos demonstram temor das consequências políticas e midiáticas de um vazamento, esse receio passa a fazer parte da história.
Fábio Faria e os convites para gente poderosa
Dias Toffoli negou presença. Davi Alcolumbre e Rodrigo Pacheco também disseram que estavam em Brasília naquela noite. Arthur Lira afirmou que estava na capital federal exercendo suas funções como então presidente da Câmara e negou participação em qualquer evento de Vorcaro.
Fábio Faria, por sua vez, disse à piauí que havia conhecido Vorcaro pouco antes, em um fórum empresarial, e que sua participação se limitou a transmitir convites a amigos em comum, a pedido do anfitrião.
Curiosamente, porém, a própria reportagem registra Faria presente naquela noite, usando boné e sem fantasia elaborada.
A família Vorcaro e a Igreja Batista da Lagoinha

Daniel Vorcaro, André Valadão e Henrique Vorcaro, pai do dono do Banco Master. Foto: Reprodução/Redes Sociais
É nesse ponto que a dimensão religiosa deixa de ser apenas recurso retórico.
A relação da família Vorcaro com a Igreja Batista da Lagoinha é antiga. O avô de Daniel, Serafim Vorcaro, converteu-se ao protestantismo e tornou-se pastor. Foi ele quem levou Henrique Vorcaro, pai de Daniel, para a Lagoinha. Henrique posteriormente se tornou financiador de projetos relacionados à igreja. Daniel chegou a apresentar um programa musical na Rede Super, emissora ligada à denominação.
Em nota reproduzida pela Folha de S.Paulo, a própria Lagoinha reconheceu que Vorcaro e seus familiares participaram da vida da igreja em diferentes momentos.
E é aí que surge outro personagem importante nessa teia: o pastor e empresário Fabiano Campos Zettel.
Daniel Vorcaro, André Valadão e Henrique Vorcaro, pai do dono do Banco Master. Foto: Reprodução/Redes Sociais
É nesse ponto que a dimensão religiosa deixa de ser apenas recurso retórico.
A relação da família Vorcaro com a Igreja Batista da Lagoinha é antiga. O avô de Daniel, Serafim Vorcaro, converteu-se ao protestantismo e tornou-se pastor. Foi ele quem levou Henrique Vorcaro, pai de Daniel, para a Lagoinha. Henrique posteriormente se tornou financiador de projetos relacionados à igreja. Daniel chegou a apresentar um programa musical na Rede Super, emissora ligada à denominação.
Em nota reproduzida pela Folha de S.Paulo, a própria Lagoinha reconheceu que Vorcaro e seus familiares participaram da vida da igreja em diferentes momentos.
E é aí que surge outro personagem importante nessa teia: o pastor e empresário Fabiano Campos Zettel.
Fabiano Zettel: o pastor, o cunhado e os milhões

O pastor evangélico e empresário Fabiano Campos Zettel e sua esposa, Natália Vorcaro Zettel, em seu casamento, em 2018. Crédito: @fabianozettel no Instagram/@fabianozettel no Instagram
Fabiano Zettel é casado com Natália Vorcaro, irmã de Daniel, e atuou como pastor da Igreja Batista da Lagoinha. Além do púlpito, construiu carreira como empresário e investidor.
Zettel também ganhou projeção política nas eleições de 2022. Segundo dados eleitorais reunidos pela Folha, ele doou R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Jair Bolsonaro e R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio de Freitas ao governo paulista, totalizando R$ 5 milhões.
Essa informação ajuda a dimensionar como, nesse mesmo círculo familiar, fé, grandes fortunas e política conservadora se encontram.
Isso não significa, entretanto, que Zettel estivesse na festa de Halloween. Não há evidência publicada de sua participação no evento de 31 de outubro de 2023, e seu nome é mencionado aqui exclusivamente para explicar a dimensão religiosa, empresarial e política do núcleo familiar de Vorcaro.
R$ 57 milhões movimentados por igreja administrada por Zettel

Pastor Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, durante pregação na Igreja Lagoinha. Foto: Reprodução
A ligação entre Zettel e a Lagoinha ganhou um capítulo ainda mais delicado em 2026.
Segundo relatório do Coaf encaminhado à Polícia Federal e revelado pela Folha de S.Paulo, uma conta da Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte, administrada por Zettel, movimentou R$ 57,1 milhões entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, considerando entradas e saídas classificadas como atípicas. O documento registra aproximadamente R$ 28,5 milhões em créditos e R$ 28,6 milhões em débitos.
O relatório chamou atenção para a discrepância entre essa movimentação e o faturamento anual presumido da instituição, estimado em aproximadamente R$ 950 mil. Segundo o documento, Zettel realizou 26 lançamentos que somaram R$ 19,2 milhões na conta.
A Lagoinha Global afirmou que sabia da realização de obras e melhorias na unidade, mas que não tinha conhecimento da dimensão dos valores agora revelados. A instituição também informou que Zettel foi afastado das funções pastorais depois do surgimento das primeiras informações relacionadas ao caso Master. A defesa dele optou por não se manifestar à reportagem da Folha.
É igualmente necessário deixar claro: movimentação considerada atípica pelo Coaf não equivale, por si só, a prova de crime ou condenação.
Uma “suruba” de dinheiro, religião e poder
A presença de Fabiano Zettel neste contexto ajuda a compreender por que essa história ultrapassa uma simples festa de milionários.
Daniel Vorcaro pertence a uma família historicamente relacionada à Lagoinha. Seu cunhado foi pastor da denominação, tornou-se um grande doador eleitoral e aparece em investigações financeiras relacionadas ao universo do Banco Master. Fábio Faria, ex-ministro de Bolsonaro, aparece articulando convites para a festa e demonstrando preocupação com possíveis vazamentos.
Juntos eles expõem uma característica recorrente do Brasil contemporâneo: os mesmos ambientes onde religião, política e grandes fortunas se aproximam são frequentemente apresentados ao público sob a linguagem da moralidade, da família e dos valores tradicionais.
E é exatamente esse discurso que pode e deve ser confrontado quando os bastidores aparecem.
A moral pública e a vida privada
Pessoas religiosas podem beber, dançar, frequentar festas e viver sua intimidade como qualquer adulto.
Esse não é o problema.
Também não cabe a mídia exercer polícia moral sobre a sexualidade alheia.
A questão muda quando a moral religiosa passa a ser utilizada como instrumento de poder político, como critério para julgar a vida dos outros ou como plataforma eleitoral.
Nesse momento, a coerência entre discurso público e comportamento privado torna-se legitimamente discutível.
A festa de Vorcaro revela um ambiente em que se falava em 120 mulheres para 20 homens, preferência por mulheres jovens, estrangeiras, recolhimento de telefones e controle rigoroso contra vazamentos. Ao mesmo tempo, parte do círculo envolvido se movimentava em espaços políticos profundamente associados, nos últimos anos, à retórica de família e bons costumes.
É essa contradição que interessa ao O Demolidor de Mitos.
Quando o celular se transforma no maior inimigo
Talvez a síntese de toda a história não esteja nos milhões do Banco Master, nas atrações internacionais, na quantidade de mulheres ou nos nomes poderosos mencionados nos diálogos.
Está em três palavras:
“Telefone na porta.”
Privacidade é um direito.
Mas as próprias mensagens demonstram que a preocupação não era apenas preservar uma noite entre amigos. Havia temor explícito de repercussão, publicidade e vazamento.
E depois que o vídeo apareceu, a reação foi imediata.
É por isso que permanece uma pergunta incômoda:
se aquela festa não representava problema algum para a imagem pública de seus participantes, por que existia tamanho medo de que o público descobrisse o que acontecia ali?
É nesse encontro entre púlpito e poder, Bíblia e banco, moralidade pública e bastidores privados que mora a verdadeira “suruba terrivelmente evangélica” desta história.
FONTES CONSULTADAS:
Revista piauí — “A festa das ‘suíças’ de Vorcaro”: é a principal fonte sobre a festa de 31 de outubro de 2023. Traz as mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e Fábio Faria, os 120 mulheres para 20 homens, “só menina nova”, “telefone na porta”, “segurança dentro”, os nomes mencionados nos convites e a versão de que não foi presenciada atividade sexual no evento.
Leia a reportagem da revista piauíRevista piauí — “A trajetória de Daniel Vorcaro, o criador do Banco Master”: documenta a história religiosa da família Vorcaro, a conversão do avô ao protestantismo, sua atuação como pastor, a aproximação de Henrique Vorcaro com a Igreja Batista da Lagoinha e a passagem de Daniel pela Rede Super.
Leia o perfil de Daniel VorcaroUOL — Fabiano Zettel e a Lagoinha: confirma que Fabiano Campos Zettel é cunhado de Daniel Vorcaro, casado com Natália Vorcaro e atuava como pastor da Igreja Batista da Lagoinha em Belo Horizonte.
Leia a reportagem do UOLCNN Brasil — doações eleitorais de Fabiano Zettel: com base em dados do TSE, informa que Zettel doou R$ 3 milhões para Jair Bolsonaro e R$ 2 milhões para Tarcísio de Freitas nas eleições de 2022, totalizando R$ 5 milhões.
Leia a reportagem da CNN BrasilFolhapress/Diário do Comércio — movimentações da Lagoinha Belvedere: relata, com base em relatório do Coaf, que uma conta da unidade administrada por Zettel registrou R$ 57,1 milhões em entradas e saídas consideradas atípicas entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025.
Leia a reportagem sobre o relatório do CoafFolhapress — Lagoinha Belvedere: registra que a unidade em que Zettel pastoreava encerrou as atividades em março de 2026, no contexto das investigações do caso Master.
Crédito das informações:
Revista piauí, UOL, CNN Brasil, Folha de S.Paulo/Folhapress, Coaf e dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).