Por Nilton Cesar Santana | 12 de junho de 2026

Foto: Reprodução / Redes Sociais
O cenário político-religioso brasileiro testemunha uma nítida transição de bastão com foco estratégico no eleitorado cristão. Com o recuo de lideranças tradicionais da direita e de olho na corrida presidencial de 2026, o senador Flávio Bolsonaro cumpre agendas intensas pelo país. No dia 11 de junho de 2026, o parlamentar esteve em Belém (PA), onde visitou o bairro do Guamá para participar de um culto e receber as bênçãos da tradicional Assembleia de Deus, reduto conservador do estado. Na ocasião, ele foi recebido não apenas como um aliado político comum, mas como o sucessor natural da missão iniciada por seu pai, operando uma verdadeira transferência de "unção messiânica" para a nova campanha.
A recepção do parlamentar nesses templos ultrapassa as formalidades institucionais e adentra o terreno da veneração. Ao subir aos púlpitos da Assembleia de Deus carregando uma enorme Bíblia, entoando louvores, ajoelhando-se para receber orações de presidentes de convenções e sendo agraciado com certificados de Honra ao Mérito, constrói-se em torno dele a imagem de um enviado providencial. Esse fenômeno de idolatria e exaltação política em ambiente religioso o culto em palanque eleitoral, onde o prestígio espiritual das lideranças eclesiásticas é convertido em blindagem moral para o candidato, projetando-o como o novo "messias gospel".
Essa dinâmica repete exatamente a estratégia de personificação sagrada adotada com Jair Bolsonaro nas duas últimas eleições : na prática, Jesus Cristo acaba sendo substituído no topo da devoção do altar por uma figura política terrena. Quando a liderança eclesiástica transfere os atributos de fidelidade absoluta e salvação para um líder civil, a mensagem do Evangelho é esvaziada para dar lugar ao avanço de um projeto teocrático de poder. O reflexo dessa tática de fusão entre Igreja e Estado fica evidente quando o próprio parlamentar assume o microfone para declarar abertamente que a disputa nas urnas não é um debate de propostas, mas sim uma "guerra espiritual".
Enquanto esse teatro se desenrola, o foco obsessivo em pautas morais e no papel de "fiscais de traseiro" da vida privada alheia atua como uma perfeita cortina de fumaça. Promove-se uma intromissão agressiva nos costumes individuais para distrair as massas, enquanto o povo geme sob o peso real da inflação, do desemprego e do colapso dos serviços básicos. Essa fusão orgânica entre fé e poder civil tensiona gravemente o princípio do Estado Laico garantido pela Constituição. A transformação de cultos em comícios promove uma instrumentalização mútua: o agente político conquista um exército de eleitores fiéis guiados pela devoção, enquanto certas cúpulas religiosas buscam consolidar esse projeto teocrático para garantir influência direta e privilégios nas esferas do governo federal.
Por fim, a aclamação desse novo líder evoca a substituição do debate racional e técnico pela lógica da polarização extrema dentro das igrejas. Ao transpor os problemas de gestão, economia e direitos civis para o campo absoluto do "bem contra o mal", anula-se a pluralidade e o diálogo democrático. O portal O Demolidor de Mitos alerta que, quando o altar legitima dinastias, flerta com a teocracia e estimula a idolatria a figuras públicas, o cidadão perde o direito de exigir resultados e a religião abre mão de sua independência espiritual para servir como ferramenta de conveniência de um projeto de poder.
