Filhos de R.R. Soares, nomes ligados à Universal, lideranças da Assembleia de Deus, pastores e cantores gospel ficaram pelo caminho. O resultado não indica o fim da força evangélica, mas revela uma perda de controle das grandes estruturas religiosas sobre o voto dos fiéis.

Foto: Reprodução/Redes Sociais
As eleições de 2026 deixaram um recado difícil de ignorar para algumas das maiores máquinas político-religiosas do país: templo cheio já não significa urna cheia.
Candidatos ligados à Igreja Internacional da Graça de Deus, à Igreja Universal do Reino de Deus, a setores da Assembleia de Deus e à Igreja do Evangelho Quadrangular sofreram derrotas importantes. Pastores conhecidos e cantores populares no meio gospel também ficaram sem mandato.
O fenômeno não deve ser confundido com uma queda generalizada do voto evangélico. A direita continuou forte, o conservadorismo manteve ampla presença no Congresso e diversos candidatos identificados com pautas religiosas foram eleitos.
O que mudou foi outra coisa.
As urnas sugerem que o velho mecanismo de transferência de votos — no qual a liderança religiosa apresenta, recomenda e espera obediência eleitoral — já não funciona com a mesma eficiência.
É o chamado “voto de cajado” perdendo previsibilidade.
A família de R.R. Soares simboliza a mudança
Poucos casos ilustram melhor esse desgaste do que a família de R.R. Soares, fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus.
Cinco de seus filhos estiveram envolvidos diretamente nas eleições de 2026 e nenhum garantiu mandato para a próxima legislatura.
Em São Paulo, David R.R. Soares ficou na suplência para deputado federal. Daniel Soares tentou renovar o mandato de deputado estadual e também não conseguiu.
No Rio de Janeiro, Marcos R.R. Soares ficou suplente para deputado federal, enquanto Filipe R.R. Soares não renovou a cadeira na Assembleia Legislativa.
André R.R. Soares integrou como primeiro suplente a chapa de Waguinho ao Senado, igualmente derrotada.
Os filhos que ainda exercem mandato permanecem nos cargos até o fim da atual legislatura. A derrota está na tentativa de continuidade a partir de 2027.
Mais do que uma sucessão de resultados ruins, o episódio atinge um modelo político baseado na combinação de sobrenome, exposição religiosa e estrutura institucional.
Durante anos, grandes lideranças evangélicas conseguiram transformar prestígio religioso em influência eleitoral. Em 2026, essa relação mostrou limites.
Universal também perde terreno
A Igreja Universal do Reino de Deus, uma das organizações religiosas mais estruturadas politicamente do país, também sofreu baixas.
Marcelo Crivella, bispo licenciado da denominação, sobrinho de Edir Macedo, ex-senador e ex-prefeito do Rio de Janeiro, tentou retornar ao Senado, mas ficou longe das vagas disponíveis.
Outros nomes associados à igreja também tiveram desempenho abaixo do esperado.
A Universal continua presente na política e mantém representantes. Sua influência não desapareceu.
Mas a eleição mostrou que nem mesmo uma estrutura com décadas de experiência eleitoral, rede de templos, mídia própria e forte capacidade de mobilização consegue mais garantir que apoio institucional se transforme automaticamente em voto.
A autoridade religiosa continua relevante.
A obediência eleitoral, nem tanto.
Velha guarda da Assembleia de Deus sofre baixas
Na Assembleia de Deus, qualquer generalização seria equivocada. A denominação é formada por diferentes ministérios, convenções e lideranças, muitas vezes independentes e até concorrentes.
Houve vencedores.
Mas algumas estruturas tradicionais sofreram derrotas pesadas.
O projeto da Assembleia de Deus do Brás, liderada por Samuel Ferreira, pretendia eleger quatro candidatos somente em São Paulo. Nenhum deles alcançou o objetivo. Cezinha de Madureira recebeu 60.596 votos para deputado federal e ficou suplente; Oseias de Madureira teve cerca de 42 mil para deputado estadual; Elias de Madureira, aproximadamente 32 mil; e Rogério de Madureira, cerca de 31 mil para federal.
A eleição também atingiu a cúpula histórica da política evangélica. Quatro dos cinco ex-presidentes da bancada evangélica não conseguiram se reeleger: Gilberto Nascimento, Cezinha de Madureira, Silas Câmara e Eli Borges. Apenas Sóstenes Cavalcante retornou à Câmara.
Silas Câmara: derrota de um sobrenome histórico da Assembleia de Deus

Silas Câmara, Jair Bolsonaro e Antônia Lúcia. Foto: Reprodução
Entre esses casos, o do pastor Silas Câmara merece atenção especial.
Silas pertence à conhecida família Câmara, com forte presença histórica na Assembleia de Deus na Região Norte. Seu irmão Samuel Câmara preside a Assembleia de Deus em Belém, considerada a igreja-mãe da denominação no Brasil, enquanto Jonatas Câmara lidera a Assembleia de Deus no Amazonas. A família também construiu presença relevante na comunicação religiosa e na política.
Depois de uma longa trajetória na Câmara dos Deputados e de já ter presidido a bancada evangélica, Silas recebeu 93.592 votos em 2026 e terminou como suplente no Amazonas.
A derrota ocorreu após um período de forte exposição pública de sua vida pessoal. Em dezembro de 2025, sua então esposa, a deputada federal Antônia Lúcia, acusou Silas publicamente de traições e “humilhações psicológicas” durante o casamento de 33 anos. Ela chegou a escrever que o pastor havia “esquecido os mandamentos de Deus”. Silas não respondeu às acusações ao UOL até a publicação da reportagem.
Não há base para afirmar que esse episódio tenha causado sua derrota eleitoral. Eleições são resultado de inúmeros fatores.
Mas existe uma contradição política impossível de ignorar.
Quando um candidato utiliza a condição de pastor, a defesa da família e os chamados “valores cristãos” como parte de sua identidade pública, a distância entre o discurso moral apresentado aos fiéis e as acusações sobre sua vida privada inevitavelmente passa a ser objeto de escrutínio.
O caso de Silas Câmara mostra que nem décadas de mandato, sobrenome influente, rede religiosa e autoridade pastoral garantem a mesma fidelidade eleitoral de outros tempos.
Quadrangular repete o padrão
A Igreja do Evangelho Quadrangular também enfrentou derrotas.
Em São Paulo, Lucas Flores recebeu cerca de 52 mil votos para deputado estadual e Suéli Gonçalves, aproximadamente 44 mil. Nenhum dos dois foi eleito. Em Minas Gerais, outros candidatos identificados com a denominação também terminaram na suplência.
Novamente, estrutura religiosa e apoio institucional mostraram capacidade de mobilização, mas não foram suficientes para assegurar cadeiras.
Abílio Santana despenca na Bahia
Na Bahia, outro resultado chama atenção.
O pastor Abílio Santana, ligado à Assembleia de Deus Madureira e ex-deputado federal, tentou retornar à Câmara pelo PSDB.
Recebeu apenas 4.379 votos e ficou suplente.
A diferença em relação ao passado é expressiva. Em 2018, Abílio havia sido eleito deputado federal com mais de 50 mil votos.
Fama nos púlpitos, participação em congressos religiosos e passagem por Brasília não foram suficientes para manter sua antiga força eleitoral.
Mas a própria Bahia demonstra por que não se pode falar simplesmente em “derrota dos evangélicos”.
Pastor Sargento Isidório foi o deputado federal mais votado do estado em 2026, com 248.147 votos.
O eleitor religioso continua existindo e continua votando.
O que parece ter diminuído é a capacidade de determinados caciques religiosos de controlar para onde esse voto vai.
Nem a fama gospel garantiu cadeira
O fenômeno alcançou também artistas e pregadores conhecidos.
Otoni de Paula recebeu 19.364 votos para deputado federal no Rio. Elaine Martins teve 14.723 votos para deputada estadual; Cristina Mel, 8.273 para federal; Gisele Nascimento, 5.453 para estadual; Vanilda Bordieri, 4.480 para federal; e Michele Nascimento, apenas 616 votos.
Todos terminaram como suplentes.
A conclusão é simples: popularidade religiosa não equivale automaticamente a força eleitoral.
Agenda lotada em igrejas, seguidores nas redes e reconhecimento no mercado gospel podem gerar visibilidade.
Mas visibilidade não é mandato.
A direita cresceu enquanto grandes igrejas perderam candidatos
Essa é provavelmente a maior contradição das eleições de 2026.
Enquanto várias máquinas denominacionais sofreram derrotas, a direita avançou.
Além das 121 cadeiras conquistadas pelo PL, partidos classificados à direita passaram a representar cerca de 59% da nova Câmara.
Portanto, não houve uma rebelião progressista do eleitor evangélico.
O que parece ter acontecido foi uma mudança no centro de influência.
Durante décadas, determinadas igrejas funcionaram como grandes intermediárias entre políticos e eleitores religiosos.
Hoje essa intermediação é disputada por WhatsApp, YouTube, TikTok, influenciadores, líderes bolsonaristas, podcasts e políticos que falam diretamente com milhões de seguidores.
Um evangélico pode continuar conservador e votar no campo bolsonarista sem escolher o candidato oficial de sua própria denominação.
Em alguns casos, o bolsonarismo parece ter se tornado eleitoralmente maior do que algumas das organizações religiosas que ajudaram a alimentá-lo.
O desgaste do “voto de cajado”
Setores do neopentecostalismo brasileiro desenvolveram durante décadas uma sofisticada máquina política.
Templos criaram redes de sociabilidade.
Pastores conquistaram rádio e televisão.
Denominações passaram a organizar candidaturas, dividir territórios eleitorais e construir bancadas.
Famílias inteiras entraram na política.
Sobrenomes religiosos viraram marcas eleitorais.
Essa engrenagem não desapareceu.
Mas 2026 mostrou que ela já não funciona com a mesma previsibilidade.
O fiel pode continuar religioso, conservador e profundamente ligado à igreja sem entregar sua decisão eleitoral ao líder que ocupa o púlpito.
A autoridade religiosa permanece.
A autoridade eleitoral não necessariamente acompanha.
Quando religião e poder se confundem, o Estado laico entra em tensão
Há ainda uma questão maior.
O Brasil é constitucionalmente um Estado laico.
Isso não significa um Estado contra a religião. Significa um Estado que não pertence a nenhuma religião.
Pastores, padres, líderes de religiões de matriz africana, espíritas, judeus, muçulmanos, ateus e qualquer outro cidadão possuem o mesmo direito de participar da política.
O problema surge quando uma instituição religiosa pretende converter autoridade espiritual em autoridade estatal.
Quando candidatos são apresentados como “escolhidos por Deus”, adversários são demonizados, púlpitos se transformam em palanques e propostas públicas são justificadas por supostas ordens divinas, a fronteira entre fé privada e poder público começa a desaparecer.
E isso é incompatível com o espírito do Estado laico.
Deputado não é representante de Deus.
É representante de cidadãos.
Congresso não é igreja.
Constituição não é Bíblia.
Políticas públicas precisam ser discutidas com base em direitos, evidências, interesse coletivo e regras democráticas — não em profecias ou na interpretação particular da vontade de uma divindade.
Fé, pobreza e poder
Existe ainda uma dimensão social que merece análise crítica.
Parte importante do crescimento neopentecostal ocorreu em territórios marcados por baixa renda, serviços públicos precários, insegurança, desemprego e ausência do Estado.
É justamente onde a realidade material é mais dura que promessas de prosperidade, cura, milagre e intervenção sobrenatural podem adquirir enorme força simbólica.
A crítica não deve ser dirigida ao trabalhador pobre que busca esperança.
Deve ser dirigida ao uso político dessa esperança.
Quando crenças impossíveis de comprovar, promessas sobrenaturais e medo espiritual são misturados a campanhas eleitorais, a confiança construída no campo religioso pode ser transformada em capital político.
O fiel enfrenta problemas concretos: salário baixo, transporte precário, desemprego, moradia, saúde e educação.
Enquanto isso, parte das lideranças religiosas tenta convencê-lo de que determinada escolha eleitoral possui aprovação divina.
É justamente nesse ponto que o ceticismo se torna necessário.
Milagre não substitui hospital.
Profecia não cria emprego.
Unção não substitui escola.
Promessa de prosperidade não aumenta salário.
E suposta revelação divina não pode substituir debate democrático.
O recado das urnas
As eleições de 2026 não decretaram o fim da bancada evangélica.
Não encerraram a influência religiosa sobre a política.
Muito menos produziram uma guinada progressista do eleitorado.
O que elas mostraram foi uma rachadura num modelo antigo: o da liderança religiosa que acredita possuir não apenas a fé, mas também a consciência eleitoral de quem está sentado nos bancos de sua igreja.
As derrotas de filhos de televangelistas, velhos caciques parlamentares, candidatos institucionais e celebridades gospel indicam que essa fórmula encontra resistência.
Fiel não é propriedade política de pastor.
Púlpito não deveria ser palanque.
Igreja não deveria funcionar como curral eleitoral.
Mandato não é unção.
Congresso não é altar.
Estado não é extensão de templo.
E voto não é dízimo.
A força política dos evangélicos continua enorme. O que as urnas de 2026 colocaram em dúvida foi a ideia de que essa força pertence automaticamente aos donos das grandes estruturas religiosas.
A velha fórmula — pastor indica, igreja apresenta e fiel obedece — começa a apresentar rachaduras.
Para os grandes empresários da fé, talvez esse seja o recado mais incômodo das urnas:
o rebanho continua nos templos, mas o voto já não cabe tão facilmente no bolso do pastor.
Fontes consultadas:
- Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — resultados das Eleições 2026
- Câmara dos Deputados — composição partidária da nova legislatura
- ICL Notícias — Pastores de mandato e grandes igrejas perdem força nas urnas do Rio
- Metrópoles — coluna de Demétrio Vecchioli sobre a derrota eleitoral de grandes igrejas evangélicas em 2026
- Folha de S.Paulo — levantamento sobre a derrota de ex-presidentes da bancada evangélica e o desgaste da velha guarda
- UOL Notícias — apuração eleitoral e reportagens sobre Silas Câmara e Antônia Lúcia
- Revista Piauí — reportagem sobre a influência da família Câmara na Assembleia de Deus e na política
- Fuxico Gospel — levantamentos sobre os filhos de R.R. Soares, candidatos ligados às igrejas, pastores e cantores gospel derrotados em 2026
Apuração e análise: O Demolidor de Mitos — Nilton Cesar Santana