
Bolsonaristas invadem e vandalizam a Sede dos Três Poderes, em Brasília, Distrito Federal, 8 de janeiro de 2023 [Reprodução/MEMO]
O debate público brasileiro cruza, com frequência cada vez maior, a fronteira entre a livre manifestação da fé e o ativismo político de matiz confessional. No centro desse turbilhão está a chamada Teologia do Domínio (ou dominionismo) — um conceito que transita do rigor doutrinário de teóricos radicais às práticas de oração, declarações públicas e ocupação de espaços políticos, culturais e midiáticos no país.
A análise deste fenômeno exige encarar os fatos sem rodeios ou meias-palavras, desmistificando tanto as teorias de conspiração que generalizam toda a comunidade evangélica quanto as tentativas de minimizar um projeto cujo objetivo final é a consolidação de uma única religião dominante, ameaçando diretamente o pluralismo e a laicidade do Estado.
A Instrumentalização da Fé: Alienação Teológica e Vulnerabilidade Social

Retrato de R. J. Rushdoony. Fonte: Friends of Justice (2016)
O termo encontra sua justificativa teológica na reinterpretação do chamado "Mandato do Domínio" em Gênesis 1:28, ordem bíblica em que Deus orienta a humanidade a "encher a Terra e subjugá-la; dominar sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra". Na leitura dominionista, essa ordenança transcende a gestão da criação para autorizar a submissão e o controle de todas as esferas sociais e políticas por uma visão confessional específica.
Muitos fiéis de baixa escolaridade, sem conhecimento histórico ou discernimento teológico aprofundado, seguem lideranças extremistas sem ter consciência de que estão sendo instrumentalizados por um projeto político pautado nessa interpretação. Coagidos por discursos de autoridade espiritual e pela busca legítima por acolhimento em regiões desassistidas pelo Estado, esses fiéis passam a reproduzir pautas teocráticas e supremacistas sem compreender a origem nem as consequências reais dessa ideologia autoritária.
Contudo, a estrutura por trás desse movimento possui raízes teológicas e estratégias bem mapeadas no topo das corporações religiosas:
- Reconstrucionismo Cristão e Teonomia (Vertente Reformada Radical): Fundado por Rousas John Rushdoony na década de 1970, defende a aplicação estrita da lei civil do Antigo Testamento (teonomia). Em The Institutes of Biblical Law, Rushdoony classificou a idolatria como "crime capital" e defendeu a aplicação da pena de morte civil para crimes Mosaicos (como blasfêmia, feitiçaria, adultério e homossexualidade), sustentando que a prática pública de religiões não cristãs violaria a lei do Estado reconstruído.
- O Movimento das Sete Montanhas (Vertente Neopentecostal e Carismática): Popularizado nas últimas décadas, propõe que os cristãos devem ocupar estrategicamente esferas fundamentais da sociedade: governo, educação, mídia, economia, família, religião e artes/entretenimento. Nesta vertente, a tônica deixa de ser a imposição penal imediata e passa a ser a influência cultural, institucional e a hegemonia de poder.
A Lógica do Monopólio e a Narrativa Supremacista
Por trás dos discursos de engajamento social, o objetivo central de movimentos dominionistas é a eliminação da coexistência plural. Para essas vertentes radicais, o pluralismo religioso não é visto como um valor democrático, mas como um "compromisso com o erro":
- A Retórica do "Povo Escolhido": Assim como ideologias supremacistas históricas (como o mito da raça ariana no nazismo) construíram narrativas de destinação biológica superior para dominar o Estado, vertentes dominionistas extremistas utilizam a apropriação teológica de um "povo escolhido" para reivindicar o monopólio da virtude e a exclusividade do poder público. A diferença central é que, enquanto o nazismo operava pelo determinismo biológico inalterável, o extremismo teocrático opera pela submissão doutrinária e conversão compulsória.
- Do Decreto Espiritual à Ocupação Cívica: Expressões como "eu determino", "eu decreto" e "o Brasil é do Senhor Jesus" funcionam no ecossistema carismático como atos de autoridade e tomada de posse territorial. A oração abandona a súplica e ganha contornos de reivindicação normativa sobre a nação.
- A Erosão da Cidadania Plena: Quando a meta passa a ser o estabelecimento de uma única cosmovisão religiosa no comando das instituições, todos os demais cidadãos — candomblecistas, umbandistas, católicos, espíritas, judeus, muçulmanos, ateus e cristãos dissidentes — passam a ter seus direitos condicionados e sua cidadania rebaixada a uma posição de tolerância temporária.
Do Discurso de Ódio aos Atos de Intolerância Real
A linguagem que classifica outras manifestações espirituais e identidades como "demoníacas", "paganismo" ou "idolatria" não permanece restrita aos altares ou às redes sociais. Ela se traduz em agressões diretas no tecido social, afetando religiões de matriz africana, minorias sociais e instituições católicas:
- O Racismo Religioso e a Segurança Pública: Um levantamento apoiado pela Defensoria Pública da União (DPU) que ouviu lideranças de 511 terreiros apontou que 74% relataram ameaças ou destruição de suas casas sagradas. O estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) evidencia que esses ataques não são meros conflitos vizinhais, mas crimes de ódio e controle social.
- Ataques Sistemáticos a Terreiros de Candomblé: Como noticiado pelo G1 em janeiro de 2026, a violência simbólica e física contra casas de axé ganhou contornos explícitos em Salvador, onde o terreiro de Candomblé Nzo Mutá Lombô Ye Kayongo Toma Kwiza foi invadido e vandalizado com pichações de cunho intolerante, estampando os dizeres "Jesus e assassinose" nos muros do espaço sagrado. O episódio soma-se a um padrão nacional em que grupos radicais e militantes violentos incendeiam terreiros, forçam Mães e Pais de Santo a quebrar suas próprias imagens e os expulsam de seus territórios sob severas ameaças de morte.
Recentes Ataques e Ofensas à Igreja Católica e Seus Símbolos

Sérgio Von Helder era bispo da Igreja Universal e chutou imagem de Nossa Senhora Aparecida na RecordImagem: Reprodução/YouTube
A escalada da intolerância iconoclasta não atinge apenas as religiões afrorreligiosas; ela avança de forma contínua e documentada sobre o catolicismo popular e oficial no Brasil:
- De Sérgio Von Helder a Símbolo para Extremistas: Como apurado pela Folha de S.Paulo, o ato do ex-bispo Sérgio Von Helder, que chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida em 1995, passou a ser resgatado e cultuado por setores do radicalismo religioso como uma espécie de "marco zero" da guerra cultural iconoclasta.
- Ataques a Imagens em Cultos e Mídias: Em outubro de 2023, o G1 registrou a atuação de um pastor no interior de São Paulo que destruiu publicamente uma imagem da Padroeira do Brasil com uma marreta durante uma pregação, no mesmo período em que o pastor Sérgio Fernandes, em Brasília, chamou a santa de "Satanás fantasiado de azul".
- Ações Judiciais Contra Discurso Anti-Mariano: Conforme noticiado pelo portal Metrópoles, entidades e associações católicas acionaram a Justiça contra o livro A Bomba, de autoria do bispo J. B. Carvalho, devido a trechos que atacam diretamente a devoção a Nossa Senhora Aparecida e sustentam que "Deus odeia o culto à Rainha dos Céus".
- Vandalismo e Profanação Direta em Templos: Em setembro de 2026, o G1 reportou o choque provocado pela destruição total da imagem de Santa Dulce dos Pobres no interior da Paróquia Nossa Senhora da Luz, na Pituba (Salvador), além de episódios subsequentes de invasão e profanação reportados em igrejas na Bahia e em Sergipe.
Democracia e Laicidade: O Veredito do Misto
A Constituição Brasileira de 1988 estabelece uma premissa inegociável em seu Artigo 19: o Estado é laico. A liberdade de consciência e de crença é inviolável, garantindo proteção igualitária ao evangélico, ao católico, ao candomblecista, ao umbandista, ao espírita, ao judeu, ao muçulmano e ao ateu.
- Fé é livre, poder é público: Todo cidadão tem o direito de ser motivado por seus valores pessoais ao votar, legislar ou exercer o poder.
- O perigo da matriz teocrática: O problema surge quando um grupo assume o poder convencido de que possui autorização divina para transformar sua teologia particular na única crença autorizada e parâmetro obrigatório para toda a sociedade.
A Teologia do Domínio não é uma fantasia inofensiva. Trata-se de um projeto de poder teocrático e hegemonista em sua essência. Numa democracia saudável, a fé pode inspirar corações e mentes, mas quando explora a vulnerabilidade social e o analfabetismo teológico para capturar o Estado e impor uma religião única, a própria liberdade de todos deixa de existir.
Fontes e Referências Bibliográficas
1. Documentos e Pesquisas de Segurança Pública
- DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO (DPU). Relatório Nacional sobre Intolerância Religiosa e Ataques a Templos no Brasil. Mapeamento com 511 lideranças e terreiros de matriz africana (74% de relatos de ameaças e destruição de casas sagradas).
- FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA (FBSP). "Terreiros sob ataque no Brasil: um problema de segurança pública". Revista Fonte Segura, 2023. Análise da subnotificação criminal, racismo religioso e territorialização de grupos armados.
- REVISTA VEJA. "Em nome de Jesus: bandidos destroem terreiro no Rio". Cobertura e investigação sobre o "narcofundamentalismo", a atuação de "traficrentes" e a coerção física contra Mães e Pais de Santo na Baixada Fluminense.
- G1 BAHIA. "‘Jesus’ e ‘assassinos’: terreiro de Candomblé é pichado em Salvador". Publicado em 20 de janeiro de 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/01/20/terreiro-de-candomble-e-pichado-com-ofensas-em-salvador.ghtml. Acesso em: 29 de setembro de 2026.
2. Fundamentação Teórica da Teologia do Domínio e Extremismo
- RUSHDOONY, Rousas John. The Institutes of Biblical Law. Craig Press, 1973. Obra fundacional do Reconstrucionismo Cristão e da Teonomia, que defende a aplicação das leis civis e morais do Antigo Testamento e a criminalização da idolatria com pena capital civil.
- WALLNAU, Lance; WAGNER, C. Peter. Invading Babylon: The 7 Mountain Mandate. Destiny Image Publishers, 2012. Formulação do "Movimento das Sete Montanhas" (Seven Mountain Mandate) para a conquista institucional de esferas de poder público e cultural.
- CARVALHO, J. B. A Bomba: A Oração que Move a Mão de Deus. Editora Chara, 2001. Registro teológico da Comunidade das Nações com críticas à devoção mariana e alegações de que "Deus odeia o culto à Rainha dos Céus".
3. Cobertura Jornalística de Episódios e Ataques Reais
- G1 BAHIA. "Imagem de Santa Dulce é destruída dentro de igreja de Salvador". Publicado em 28 de setembro de 2026. Registro do ato de vandalismo, vilipêndio e destruição total da peça sacra na Paróquia Nossa Senhora da Luz (Pituba).
- PORTAL MAURÍLIO JÚNIOR. "Igrejas católicas são alvos de ataques na Bahia e em Sergipe: imagens religiosas são destruídas". Publicado em 28 de setembro de 2026. Reportagem sobre a escalada regional de invasões e profanação a templos católicos.
- FOLHA DE S.PAULO. "Bispo da Universal que chutou a santa em 1995 tornou-se o 'santo' dos extremistas". Publicado em outubro de 2025. Análise do resgate histórico e exaltação do episódio de Sérgio Von Helder no ecossistema radical.
- FOLHA DE S.PAULO. "Pastor chama Nossa Senhora Aparecida de 'Satanás fantasiado de azul'". Publicado em outubro de 2023. Registro das ofensas proferidas pelo pastor Sérgio Fernandes durante culto na igreja Nova Vida de Brasília.
- G1 BAURU E MARÍLIA. "Pastor ataca imagem de Nossa Senhora Aparecida durante culto no interior de SP". Publicado em outubro de 2023. Registro da destruição de imagem sacra católica com marreta em templo evangélico.
- METRÓPOLES (Coluna Matheus Leitão). "Entidade vai à Justiça contra livro de J. B. Carvalho que ataca N. S. Aparecida". Matéria sobre as representações judiciais movidas por associações católicas contra ataques à mariolatria.
4. Legislação e Parâmetros Constitucionais
- BRASIL.Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
- Artigo 5º, VI: Inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença, livre exercício dos cultos religiosos e proteção aos locais de culto.
- Artigo 19, I: Vedação expressa ao Estado de estabelecer, subvencionar ou manter relações de dependência ou aliança com cultos religiosos.
- BRASIL. Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848/1940). Artigo 208: Tipificação do crime de vilipêndio público a objeto de culto religioso ou perturbação de cerimônia sagrada.
- BRASIL. Lei nº 14.532/2023. Altera a Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989) para enquadrar o racismo religioso e endurecer as penas para crimes praticados contra locais e símbolos de culto.