
Foto: Reprodução / TV Aratu / Alô Juca
Candidata do PL declara não ser preta durante debate em Salvador, embora seus dados eleitorais de 2026 registrem cor/raça “preta”. Episódio abre uma discussão que passa pela escravidão, pelo ideal de embranquecimento, por Malcolm X, pelo bolsonarismo e até pelo perturbador universo racial do filme Corra!.
“Primeiro que não sou preta, sou marrom.”
A declaração atribuída à candidata Josi Flora durante um debate sobre segurança pública promovido pelo Podcast do Alô Juca, em Salvador, rapidamente ultrapassou os limites daquele encontro. Segundo matéria publicada pelo Blog do Bruno Muniz em 25 de setembro de 2026, a resposta surgiu durante uma discussão envolvendo identidade racial e representatividade e acabou repercutindo nas redes sociais.
À primeira vista, alguém poderia considerar tudo isso apenas uma discussão sobre tonalidade de pele. Mas existe um detalhe objetivo que transforma a frase em assunto de interesse público.
Josi Flora — nome de urna de Georgeane Mauricio dos Santos — é candidata a deputada estadual na Bahia em 2026 pelo Partido Liberal, o PL, número 22580. Dados eleitorais processados em 24 de setembro de 2026 a partir das informações da Justiça Eleitoral registram sua candidatura como deferida e informam que ela declarou cor ou raça “preta”.
A mesma classificação já aparecia em sua candidatura a vereadora de Salvador pelo PL em 2024. Naquele registro eleitoral, seu perfil também apresentava “Cor/Raça: PRETA”.
Portanto, antes de qualquer interpretação ideológica, existe uma questão documental: a candidata que aparece registrada eleitoralmente como preta afirmou publicamente, segundo a reportagem, “não sou preta, sou marrom”.
Essa contradição merece explicação.
“Marrom” não existe como categoria de cor ou raça do IBGE
Uma pessoa evidentemente pode usar “marrom” para descrever sua própria pele em uma conversa cotidiana. Mas essa não é uma das categorias utilizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
O IBGE trabalha com cinco categorias de cor ou raça: branca, preta, parda, amarela e indígena, e o levantamento é baseado na autodeclaração da pessoa entrevistada.
Portanto, “marrom” pode funcionar como definição pessoal ou coloquial, mas não corresponde a uma categoria racial oficial empregada pelo IBGE.
E é exatamente aí que a discussão fica mais profunda.
O Brasil desenvolveu ao longo de sua história dezenas de palavras para falar da pele: moreno, moreno claro, moreno escuro, jambo, mulato, café com leite, cor de canela e inúmeras outras expressões.
Isso não significa que todo brasileiro que utilize uma dessas palavras esteja conscientemente rejeitando uma identidade negra.
Mas também seria impossível separar esse enorme vocabulário racial da história de um país construído durante séculos sobre escravidão, hierarquização racial e, posteriormente, ideais de embranquecimento.
A escravidão acabou. O racismo não recebeu ordem para desaparecer
A Lei Áurea extinguiu juridicamente a escravidão em 1888. Entretanto, a população que saía da condição de escravizada não recebeu automaticamente terras, patrimônio ou políticas capazes de corrigir séculos de exclusão.
Estudo do Ipea sobre racismo e desigualdade racial explica que, principalmente após a Abolição, teorias de suposta inferioridade biológica dos negros ganharam espaço no debate nacional e o projeto de branqueamento tornou-se parte importante das discussões sobre o futuro do país. Mesmo posteriormente, segundo o estudo, o ideal de embranquecimento continuou presente como projeto pessoal e social.
Material recente da Fundação Cultural Palmares também relaciona o período pós-1888 à ausência de terra, indenização e políticas públicas reparadoras para a população negra e à permanência de desigualdades nas estruturas sociais, políticas e econômicas.
É nesse sentido que falar em resquícios da escravidão não significa dizer que o Brasil de 2026 seja literalmente uma sociedade escravista.
Significa reconhecer uma coisa muito mais desconfortável: uma instituição pode desaparecer legalmente antes que desapareçam todas as mentalidades, hierarquias e desigualdades que ela ajudou a construir.
A senzala acabou.
Mas determinadas ideias produzidas pela Casa-Grande demoraram muito mais para morrer.
Algumas talvez ainda estejam agonizando.
E tudo isso acontece justamente em Salvador
Existe algo simbolicamente poderoso no fato de essa discussão acontecer em Salvador.
A Fundação Cultural Palmares descreve Salvador como a capital mais negra do Brasil e utiliza inclusive a expressão “cidade mais negra do mundo fora da África”, destacando a presença africana na gastronomia, religião, música, dança e em outras manifestações culturais da cidade.
O Censo de 2022 encontrou 825.509 pessoas autodeclaradas pretas entre os 2.417.678 habitantes de Salvador.
Dados derivados do mesmo Censo mostram que 34,1% dos moradores eram pretos e 49,1% pardos. Consideradas em conjunto, essas duas categorias correspondiam a 83,2% da população de Salvador.
Mais de oito em cada dez habitantes.
É a Salvador dos terreiros, da capoeira, do samba, dos blocos afro, do acarajé, do Ilê Aiyê, do Olodum e de uma herança africana impossível de retirar da identidade da cidade.
A presença negra não é um detalhe de Salvador.
Ela é parte da estrutura histórica e cultural que construiu Salvador.
Por isso uma frase como “não sou preta, sou marrom”, quando pronunciada nesse cenário por alguém cujos próprios registros eleitorais apresentam a classificação “preta”, inevitavelmente ultrapassa a experiência individual e entra numa discussão coletiva sobre como o Brasil aprendeu a lidar com a palavra “preto”.
Por que tanta dificuldade com a palavra “preto”?
Existe uma pergunta que precisa ser feita sem transformar a resposta em acusação individual.
Por que tantas pessoas ao longo da história brasileira procuraram outras palavras para descrever tons de pele associados à população negra?
Não existe uma única resposta.
Identidade racial é complexa, envolve aparência, história familiar, experiência social e autopercepção.
Mas existe também um contexto histórico impossível de ignorar.
Documento atualmente disponibilizado pela Polícia Federal, baseado no Estatuto da Igualdade Racial e em referências de direitos humanos, lembra que a legislação brasileira considera população negra o conjunto de pessoas autodeclaradas pretas e pardas. O mesmo material observa que, devido à escravização, ao racismo estrutural e às políticas históricas de branqueamento, houve no Brasil um afastamento social do próprio termo “negro”, posteriormente ressignificado pelos movimentos negros.
Então talvez o verdadeiro tema da discussão não seja simplesmente a palavra “marrom”.
Talvez seja o peso histórico que ainda carregamos quando precisamos dizer preto.
Malcolm X e o “negro da casa”

A foto mostra o líder Malcolm X (à direita) ao lado de Fidel Castro, em 1964. — Reprodução/Redes sociais
É impossível entrar nesse terreno sem lembrar uma das metáforas mais duras utilizadas por Malcolm X.
Em 10 de novembro de 1963, durante o discurso Message to the Grass Roots, em Detroit, Malcolm X retomou a comparação entre o “house Negro”, normalmente traduzido como “negro da casa”, e o “field Negro”, o “negro do campo”. A transcrição histórica está preservada pelo Malcolm X Project da Universidade Columbia.
Na construção retórica de Malcolm X, o “negro da casa” vivia mais próximo do senhor, desfrutava comparativamente de algumas condições melhores e acabava identificando seus próprios interesses com os interesses daquele que controlava a estrutura.
Quando o senhor dizia “nós”, segundo a metáfora de Malcolm, aquele escravizado também começava a pensar em termos de “nós”.
A imagem é brutal porque a crítica de Malcolm X não era simplesmente sobre onde alguém dormia na plantação.
Era sobre identificação com o poder.
Seria intelectualmente irresponsável simplesmente chamar Josi Flora de “negra da casa”. A metáfora foi criada em outro país, em outro período histórico e dentro de uma disputa política específica dos Estados Unidos.
Mas a pergunta provocada por Malcolm X continua válida:
o que acontece quando alguém pertencente a um grupo historicamente marginalizado passa a buscar reconhecimento dentro de estruturas nas quais outro grupo estabeleceu durante muito tempo os padrões de prestígio, aceitação e poder?
Essa pergunta é muito maior que Josi Flora.
O pertencimento político também entra na discussão

Foto: Reprodução/Redes Sociais
Existe ainda outra camada no episódio.
Josi Flora disputa uma vaga de deputada estadual pelo PL. Sua candidatura está oficialmente registrada em 2026 e seu histórico eleitoral mostra que ela também concorreu pelo mesmo partido em 2024.
Isso permite discutir politicamente o ambiente no qual ela escolheu construir sua candidatura, mas exige cuidado para não transformar interpretação em fato.
Há produção acadêmica que classifica o bolsonarismo como parte da extrema direita. Um artigo de André Kaysel e Alvaro Bianchi publicado no Caderno CRH define especificamente o fenômeno como uma “coalizão discursiva de extrema-direita”, articulando, segundo os autores, elementos de neofascismo, ultraliberalismo, conservadorismo cristão e autoritarismo militar. Essa é uma caracterização dos pesquisadores, dentro de um debate acadêmico mais amplo sobre como classificar o bolsonarismo.
Daí surge uma pergunta politicamente provocativa: a maneira como identidade racial é apresentada pode sofrer influência da busca por pertencimento a determinados grupos políticos e sociais?
Essa pergunta é legítima como análise geral.
O que não existe, até o momento, é evidência suficiente para afirmar que Josi Flora tenha dito “sou marrom” especificamente para ser aceita pela direita, pelo bolsonarismo ou por qualquer outro grupo.
Filiação partidária é fato.
Registro racial é fato.
A declaração publicada é fato atribuído pela reportagem.
Motivação psicológica, sem prova, seria especulação.
E uma crítica séria não precisa inventar aquilo que os fatos já tornam suficientemente incômodo.
Então entra Corra!

Foto: Reprodução/Redes Sociais
Nesse ponto, uma obra aparentemente distante da política baiana ajuda a pensar sobre raça, identidade e pertencimento.
Em 2017, Jordan Peele lançou Get Out, chamado de "Corra!" no Brasil.
O protagonista, Chris, é um jovem negro que visita a família branca de sua namorada. O ambiente inicialmente apresenta sinais de acolhimento, mas progressivamente revela relações profundamente perturbadoras envolvendo raça, corpos negros, controle e poder.
Peele explicou em entrevista que o filme nasceu em parte da ideia de que, após a eleição de Barack Obama, havia nos Estados Unidos um discurso de que a questão racial estaria superada. O diretor construiu então um filme de terror justamente para discutir as tensões raciais que continuavam presentes na sociedade.
Corra! não pode ser usado para dizer que Josi Flora reproduz literalmente um personagem do filme.
A referência funciona de maneira muito mais interessante como metáfora.
O filme pergunta, de forma brutal: o que acontece com uma pessoa negra quando ela entra em determinados espaços de poder e descobre que ser aparentemente aceita não significa necessariamente controlar a maneira como sua identidade é percebida?
Há ainda uma cena particularmente relevante para essa discussão: Chris encontra outro homem negro cujo comportamento lhe parece estranhamente deslocado. Peele usa aquela situação para trabalhar questões sobre negritude, branquitude, comportamento e a expectativa de como determinada identidade deveria se manifestar.
É terror.
Mas também é uma discussão sobre pertencimento.
Casa-Grande sem paredes
Talvez seja possível juntar Malcolm X, Corra! e a história brasileira em uma única imagem.
A Casa-Grande não precisa mais existir fisicamente para que alguns de seus valores sobrevivam.
Ela sobrevive simbolicamente quando determinado cabelo precisa ser “domado”.
Quando determinados traços físicos são tratados como menos desejáveis.
Quando “clarear” parece elogio.
Quando aproximar-se de determinados padrões significa prestígio.
Quando a sociedade cria uma extensa escala de palavras entre o branco e o preto, como se a distância do segundo pudesse representar alguma vantagem.
Isso não significa que qualquer pessoa que diga “sou morena”, “sou parda” ou “sou marrom” esteja praticando racismo contra si mesma.
Essa conclusão seria simplista.
Significa apenas reconhecer que ninguém constrói sua identidade racial em um laboratório isolado da história.
Somos formados dentro da sociedade em que vivemos.
E a sociedade brasileira passou mais de três séculos ensinando quem podia ocupar a Casa-Grande e quem deveria permanecer do lado de fora.
A contradição que permanece
Josi Flora possui o direito de explicar como compreende sua própria identidade racial.
Pode dizer que “marrom” representa apenas sua percepção da tonalidade da pele.
Pode explicar se considera inadequada atualmente a classificação “preta”.
Pode esclarecer por que os dados de sua candidatura à Justiça Eleitoral em 2024 e 2026 apresentam justamente essa categoria.
Essa explicação pertence a ela.
O que não pode ser apagado é a contradição documental existente neste momento.
De um lado:
“Não sou preta, sou marrom.”
Do outro:
Cor/raça declarada à Justiça Eleitoral: PRETA.
Não precisamos entrar na cabeça da candidata para perceber a contradição.
Ela está escrita.
138 anos depois
Em 2026, completam-se 138 anos desde a Abolição.
É tempo suficiente para destruir fisicamente milhares de senzalas.
Não necessariamente para destruir tudo aquilo que séculos de escravidão ensinaram a uma sociedade.
O Ipea registra que o racismo pós-abolição se articulou inclusive com teorias de inferioridade racial e projetos de branqueamento.
O IBGE continua demonstrando desigualdades raciais na sociedade brasileira e a importância de medir cor e raça justamente para que essas diferenças não sejam invisibilizadas.
E Salvador continua diante de uma enorme ironia histórica.
Uma cidade cuja população é 83,2% preta ou parda, profundamente marcada pela diáspora africana, presencia uma candidata oficialmente registrada como preta declarar:
“Não sou preta, sou marrom.”
Talvez o episódio desapareça das redes em poucos dias.
A pergunta provocada por ele, porém, é muito mais antiga.
Malcolm X a enfrentou falando sobre o “negro da casa”.
Jordan Peele transformou parte do desconforto racial contemporâneo em terror em Corra!.
O Brasil convive com ela desde que a primeira Casa-Grande foi erguida ao lado de uma senzala:
quanto da velha hierarquia racial sobrevive, 138 anos depois da Abolição, na maneira como enxergamos nossa própria cor, nossa identidade e os espaços aos quais desejamos pertencer?
Vídeo: Reprodução / YouTube / TV Aratu (Alô Juca)
FONTES CONSULTADAS
Blog do Bruno Muniz, “Não sou preta, sou marrom: fala de Josi Flora em debate viraliza e gera repercussão nas redes”, publicado em 25 de setembro de 2026 — fonte da declaração e do contexto do debate.
Agência Sertão / dados da Justiça Eleitoral, perfil eleitoral de Josiflora — candidatura a deputada estadual na Bahia em 2026; partido PL; situação deferida; cor ou raça declarada: preta; dados processados em 24 de setembro de 2026.
Folha de S.Paulo / Eleições 2024, perfil de Josi Flora na candidatura a vereadora de Salvador: Georgeane Maurício dos Santos, PL, cor/raça preta.
IBGE — Censo Demográfico 2022, Identificação étnico-racial da população, por sexo e idade: Salvador tinha 2.417.678 habitantes e 825.509 pessoas autodeclaradas pretas.
IBGE Educa, “Cor ou raça”: explicação sobre autodeclaração e as categorias branca, preta, parda, amarela e indígena.
Fundação Cultural Palmares, Projeto Conhecendo Nossa História — Salvador: informações históricas e culturais sobre a presença negra na capital baiana.
Unicef / dados do Censo 2022, levantamento sobre Salvador: 83,2% da população classificada como preta ou parda, sendo 34,1% preta e 49,1% parda.
Ipea, As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil — 120 anos após a Abolição: capítulo sobre racismo, República, branqueamento e discriminação racial.
Malcolm X Project — Columbia University, registros e transcrições de Message to the Grass Roots, Detroit, 10 de novembro de 1963, incluindo as metáforas do “house Negro” e “field Negro”.
KAYSEL, André; BIANCHI, Alvaro, “Bolsonarismo como coalizão discursiva de extrema-direita”, Caderno CRH, vol. 38, 2025/2026.
The Guardian, entrevista com Jordan Peele sobre Get Out, publicada em 4 de março de 2017: origem do filme, representação da experiência negra e discussão das tensões raciais norte-americanas.